Foto ilustrativa de operação contra área camponesa, em 2021. Foto: Reprodução.
Partilhamos material originalmente publicado na imprensa popular e democrática brasileira A Nova Democracia.
Policiais militares de Rondônia (RO) assassinaram quatro camponeses, destruíram casas e ambientes de criação de animais e roubaram roupas, remédios e outros itens de camponeses em uma nova investida de terror policial iniciada no dia 20 de novembro (20/11) contra 400 famílias de três acampamentos instalados no latifúndio “Maroins”, em Machadinho D’Oeste.
Em material divulgado pela PM-RO é exposto uma garrucha, de tiro único, apreendida na invasão da polícia contra a área camponesa. O Batalhão de Operações Especiais (Bope) alega que os quatro camponeses assassinados teriam utilizado esse “armamento” para “trocar tiros” com os policiais.

“Estamos aqui no acampamento onde nós sofremos esse massacre. Levaram nossas roupas, fogão de gás, vasilhas, fraldas das crianças, remédios, colchão, coberta, tudo”, denuncia uma camponesa em um vídeo recebido pela Redação do jornal A Nova Democracia. Ela própria sofre de asma e broncopatia, mas perdeu os remédios para os ladrões da PM.
O ataque policial não poupou idosos nem crianças. Outra camponesa, já de cabelos brancos, denuncia que os policiais roubaram até uma prótese mecânica reserva que ela tinha para a perna amputada. Outro morador, com filho pequeno no colo, denunciou que não tem como dar banho no filho porque ele está sem roupa limpa. “Vamos ter que dormir no chão enrolados em lona rasgada”, conta ele. A Polícia Militar (PM) também destruiu várias estruturas do acampamento, entre elas barracos dos camponeses e chiqueiros para criação de porcos.

O blog “Terra de Rondônia” relatou que o despejo foi feito “cheio de irregularidades” e sem um “plano de ocupação” – uma obrigação legal segundo a resolução 510 de 26 de junho de 2023 do Conselho Nacional de Justiça. “Nem visita técnica prévia, nem mediação, nem Plano de Ação tem sido realizadas nesta operação policial judicial”, denuncia o blog, que também relata que “o Núcleo Agrário da Defensoria Pública tem apresentado agravo de instrumento para suspender a reintegração, porém até agora não tem notícia de decisão sobre o mesmo”.
Nas redes sociais, a Polícia Militar (PM) comemorou a expulsão das famílias, evitou falar das irregularidades e manipulou os fatos. A corporação disse ter revidado uma “troca de tiro com integrantes da LCP [Liga dos Camponeses Pobres]” no acampamento e afirmou que camponeses teriam disparado contra uma guarnição da PM “durante a fuga”. A única evidência apresentada foi a imagem de duas garruchas velhas com pouquíssimas munições supostamente apreendidas no acampamento. Procurada pela reportagem, a LCP afirmou que não participa diretamente no acampamento em questão; embora a LCP defenda, e tenha defendido recentemente, a autodefesa armada de massas como legítima e necessária nas suas áreas, o movimento não estava diretamente presente na área atacada.
A PM contou com o efetivo do Batalhão de Operações Especiais (Bope), o Batalhão de Choque e o Patrulhamento Tático Móvel (Patamo) para a operação. Vídeos divulgados mostram viaturas blindadas, policiais fortemente armados e até um camburão do Bope, o famigerado “caveirão”, circulando na região. Um verdadeiro aparato de guerra contra famílias de camponeses pobres.
Terror policial se alia à violência latifundiária em Rondônia
O ataque policial ocorreu em meio à repressão desenfreada movida pela PM contra camponeses pobres em RO. No dia 12 de novembro, o Ministério Público de Rondônia (MP-RO) deflagrou a chamada operação “Godos”, direcionada contra camponeses envolvidos na luta pela terra. Mais de 20 pessoas foram presas, um camponês foi morto e até mesmo a advogada popular Lenir Correia, envolvida na defesa dos camponeses pobres, foi detida. Correia ainda está presa e sem acesso ao tratamento médico necessário. A operação foi denunciada pela LCP em nota (para ler, clique aqui) e pela Associação Brasileira de Advogados do Povo – Gabriel Pimenta (Abrapo) (para ler, clique aqui).
A operação está concentrada na área Tiago Campin dos Santos, em Nova Mutum Paraná, mas o terror policial não tem fronteiras. Esse ano, a PM atacou várias vezes as famílias dos acampamentos Gonzalo I, Gonzalo II, Valdiro Chagas e Gedeon José Duque, todos em Machadinho D’Oeste. Os ataques normalmente ocorriam logo depois de pistoleiros atacarem as áreas durante vários dias, em um claro sinal de atuação conjunta das forças policiais e dos paramilitares do latifúndio. Uma semana antes da deflagração da operação “Godos”, uma reportagem de AND comprovou que o latifundiário Antônio Martins, o “Galo Velho”, de Nova Mutum Paraná, contratava policiais para serviços de segurança particular naquele município.
Esse modus operandi também foi observado nos acampamentos instalados no latifúndio “Maroins”. Semanas antes da PM atacar a área camponesa, pistoleiros passaram dias atacando os moradores do acampamento. O bando armado circulava a área do acampamento com carros de “segurança privada” e chegou a perseguir e machucar muito um jovem camponês.
O AND pediu que vários órgãos estatais de RO comentassem a atuação da PM como força privada do latifúndio em Rondônia, mas não obteve respostas. O jornal segue acompanhando os acontecimentos na região.
