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A experiência adquirida pelo movimento operário e popular português entre 1974 e 1975 continua a ser apresentada pela burguesia e pelos oportunistas como um ciclo fechado de “democratização”, um mito conveniente que apaga o carácter profundamente contraditório do processo e, sobretudo, as energias revolucionárias que brotaram das massas trabalhadoras.
O 25 de Abril abriu de facto uma fresta no regime fascista de 1926; mas, precisamente por não ter sido conduzido por uma linha proletária, consequente, essa fresta não se transformou numa porta para a transformação social de facto. A queda do regime não foi acompanhada da construção de um novo poder democrático, que levasse o proletariado à tomada do poder e à direção das demais classes populares, e a “liberdade” conquistada no calor da ruptura acabou rapidamente aprisionada pelas mãos de quem sempre temeu que o povo fosse mais longe do que as reformas permitidas.
Os meses que se seguiram mostraram que a espontaneidade das massas, por mais vibrante e combativa que fosse, não vai além sem direcção política proletária. Sem a fusão entre os comunistas e o movimento operário e popular, o impulso inicial do povo perde-se em zigues-zagues, em hesitações, em desvios impostos tanto pelos gestores reformistas como pelos velhos e novos senhores do velho Estado. E assim, aquilo que poderia ter sido o início de uma verdadeira revolução democrática ininterrupta ao socialismo acabou por ficar preso a arranjos, compromissos, “transições” negociadas e sucessivas travagens do movimento operário, camponês e popular em geral.
O 25 de Novembro não caiu do céu. Não foi uma surpresa, nem um golpe isolado, mas a consequência lógica de um processo que nunca rompeu de forma decisante com a estrutura de poder burguesa-semifeudal, ligada aos interesses do imperialismo. Quando uma revolução não avança, recua (temporariamente); quando não se constrói o novo poder, o velho reorganiza-se; quando as massas não são organizadas de modo consciente e independente, sob a direção do proletariado, acabam contidas, dispersas e finalmente derrotadas, impondo a necessidade de reconstrução do movimento operário e popular. O 25 de Novembro representou, assim, o acto final de um ciclo em que a iniciativa popular que, usurpada pela grande burguesia, pelo latifúndio e pelos seus servos reacionários e oportunistas, foi gradualmente neutralizada até ser empurrada para “fora” do palco político.
É por isso que ouvir os testemunhos daqueles que viveram esses anos não é apenas um exercício de memória, mas uma lição para o hoje e para as lutas que virão. A história dos povos que vivem em Portugal mostra que a força revolucionária do proletariado e do povo existe, mas também mostra que a vitória não nasce da espontaneidade isolada; nasce de direcção, de organização, de clareza sobre o inimigo e sobre o objectivo.
É neste sentido que a Revista Nova Aurora repercute a entrevista realizada por um de nossos apoiadoes com Fátima, uma senhora a volta de seus 80 anos que pôde testemunhar de perto tanto os grandes levantes populares do 25 de Abril de 1974 quanto seus desdobramentos até o 25 de Novembro de 1975. O que fica para as novas gerações é compreender que nenhuma “primavera” burguesa substitui a necessidade da luta concreta pelo poder da Nova Democracia e que, quando o rumo revolucionário não é assumido, o imperialismo, a reação e o oportunismo encontram inevitavelmente o seu caminho.
Comité de Apoio à Revista Nova Aurora (CdA): Antes do 25 de Abril, já se sentia alguma organização nas fábricas ou vontade de lutar? Ou as revoltas de 1974 apanharam toda a gente de surpresa, até os mais despertos?
Fátima (F): Ah, [entrevistador], organização, organização, isso era mais na cabeça de alguns. Na fábrica onde eu estava, meia dúzia falava umas coisas baixinho, mas era sempre de olhos no chão, porque a PIDE aparecia onde menos se esperava. Lembro-me duma vez o senhor Artur, um velhote lá, dizer que a mulher dele tinha ouvido qualquer coisa na rádio francesa, mas ninguém sabia ao certo se era verdade ou se ele tinha bebido vinho logo de manhã.
Mas sim, havia vontade. Só que vontade não é coragem, não é? O 25 de Abril apanhou muita gente desprevenida, até gente que eu jurava que não se interessava por nada. E outros diziam que já sabiam há semanas, mas isso já não sei se é verdade ou se é conversa da idade.
CdA: Quando aconteceu o 25 de Abril, sentiu que era mesmo uma ruptura revolucionária ou era uma oportunidade que dependia da ação do povo?
F: Olhe, na hora eu senti uma coisa no peito, como quando o meu pai regressou da guerra lá no ultramar e eu não o via há meses. Era alegria, mas desconfiada. Parecia ruptura, sim, mas também pensei: “Se o povo fica sentado, isto volta tudo para trás.”
E depois aquele dia tinha um ar de festa, mas também de não se saber bem o que vinha aí. Eu lembro-me de ver uma vizinha minha a chorar e a dizer “é hoje”, mas depois perguntaram-lhe “o quê?”, e ela já não sabia explicar. Era assim.
CdA: Nos primeiros dias depois do 25 de Abril, o que lhe saltou mais à vista: a mobilização do povo ou as tentativas de alguns de controlar tudo por cima?
F: Saltou-me aos olhos a barafunda, sobretudo!
Havia mobilização, claro, as pessoas pareciam acordadas depois de décadas anestesiadas. Mas também já havia uns senhores de fato a tentar mandar nas conversas, uns tipos que pareciam muito entendidos, mas que ninguém conhecia.
Eu lembro-me de ir à baixa e ver militares a tirar fotos com miúdos, e ao mesmo tempo ouvir um senhor ao meu lado dizer: “Isto vai ser tudo controlado pelos mesmos.” Quer dizer, era uma mistura. Liberdade no ar e mãos a tentar pegar-lhe pela gola.
CdA: No chão da fábrica, como era a relação entre o que os trabalhadores queriam e o que os partidos mandavam? Havia conflito entre o povo e as direções?
F: Havia conflito, sim… mas também havia gente que nem percebia bem quem era quem.
Eu, por exemplo, naqueles primeiros meses achava um dos rapazes que lá ia da UDP que era do PCP, porque ele punha sempre a mala no mesmo sítio. Depois é que percebi que não tinha nada a ver. Os trabalhadores queriam coisas muito concretas: horários mais curtos, salários melhores, respeito. E os partidos traziam papéis e reuniões intermináveis, aquilo cansava. Às vezes parecia que estávamos a viver duas realidades, a da fábrica e a dos panfletos.
CdA: As comissões de trabalhadores e as ocupações vieram da necessidade do povo ou eram mais guiadas pelas organizações? Isso dava força ou enfraquecia a luta?
F: Veio das pessoas, principalmente. Pelo menos na minha fábrica foi assim: estávamos fartas de chefes que nem sabiam o nosso nome.
Mas depois vieram os partidos e também achavam que deviam dar uma ajudinha… que às vezes era ajuda e outras vezes era confusão. A força vinha do entusiasmo, mas também havia momentos que ficávamos sem saber se éramos nós a decidir ou se tínhamos de perguntar aos doutores da política. E a gente queria era resolver as coisas, não fazer teses.
CdA: Quando o PCP começou a ter mais protagonismo, como via o papel deles? Parecia que estavam ao lado dos operários ou mais a travar a luta?
F: Olhe, é difícil… Eu tinha lá uma colega, a Fernandinha, que achava o PCP a melhor coisa do mundo. Eu via-os como gente organizada, mas também com mania de mandar. Às vezes ajudavam, sim. Noutras, parecia que queriam é que fôssemos com mais calma do que a vida permitia. Eu dizia sempre: “Então, camaradas, calma pra vocês, que têm salário certo…” Mas também não vou mentir: havia medo, havia a memória da repressão, e muitos seguiam o que o PCP dizia porque não queriam confusão. Eu própria algumas vezes calei-me por prudência.
CdA: Já nos primeiros meses dava para ver que estavam a tentar transformar o 25 de Abril numa mudança controlada, e não numa mudança a sério?
F: Sim, dava. Embora na altura eu não dissesse assim tão bonito, só sentia que havia coisa a escapar-nos entre os dedos. Discursos havia muitos. Mudança na carteira, pouca. E depois já se falava de rendas e da reforma agrária e não sei quê, mas eu vivia num bairro onde mal chegava o correio, quanto mais reformas. O que eu via era os mesmos de sempre a tentar encaixar-se outra vez no poder. E nós, os mais pobres, ainda sem saber muito bem como reclamar o que era nosso.
CdA: Havia gente a dizer que era preciso ir mais além das reformas e criar um verdadeiro poder popular? Como eram ouvidas essas ideias?
F: Havia, sim, e eu até me lembro de uns rapazes novos lá da zona do Intendente que falavam nisso como quem fala de futebol. Uns achavam bonito, outros diziam que era perigoso. Havia medo de tudo o que soasse a extremo, porque toda a gente ainda tinha o 24 de Abril…? Não, o 24 de Abril não foi nada, enfim, a gente tinha o passado na garganta. Eu ouvia essas ideias com atenção, mas também com o pé atrás, porque na prática eu queria era que o salário chegasse até ao fim do mês.
CdA: No Verão Quente de 1975, sentiu que o povo queria ir mais depressa do que as direções deixavam?
F: Claro que sim. As pessoas falavam mais rápido do que os partidos decidiam.
Na fábrica era uma impaciência, uma semana diziam que íamos avançar com isto, na outra já não era bem assim.
E aquela gente a mandar, umas tinham medo, outras queriam negociar, e nós só queríamos que a vida melhorasse. Às vezes até parecia que estávamos sempre a começar tudo outra vez.
CdA: Em que momentos percebeu que as oportunidades revolucionárias estavam a ser desperdiçadas ou travadas? Houve episódios em que a força das massas foi desviada?
F: Lembro-me de uma assembleia que foi um desastre total. Queríamos votar uma coisa simples, simples na nossa cabeça, claro, e apareceu lá um tipo que dizia que tinha de vir orientação de Lisboa.
Eu fiquei tão irritada que me levantei e fui fumar lá fora, e eu nem fumava nessa altura!
E também houve ocupações que, depois de tanta reunião, acabaram por não ser nada. Tudo se perdia por detalhes e gente a mandar bocas.
CdA: Pela sua visão, o que impediu que o processo revolucionário se tornasse numa revolução de verdade? Faltou organização, direção, ou autonomia das bases?
F: Faltou, faltou tudo um bocadinho. Faltou coragem, culhão, faltou cabeça em outros, faltou união. As bases queriam avançar, mas cada uma queria à sua maneira, e as direções tinham medo de perder o controlo. E nós, os trabalhadores, víamos o tempo passar e começávamos a sentir que as promessas iam ficando no ar. A vida não espera, sabes?
CdA: No 25 de Novembro, sentiu que foi uma derrota repentina do PREC ou o resultado de uma série de recuos e concessões que vinham acontecendo?
F: Não foi nada repentino, não. Já se sentia que as coisas estavam a arrefecer. Eu lembro-me desse dia como uma coisa nebulosa, vi gente aflita, vi gente calma demais, parecia que cada um estava a viver um país diferente. Mas sim, foi o fecho de muita coisa que já vinha a ser empurrada para o canto da sala.
CdA: Como o 25 de Novembro afetou os trabalhadores: mudou a organização, a luta, o ambiente sindical? Foi um corte à bruta ou um encerramento gradual?
F: Foi um corte, mas daqueles que não se nota logo, como quando se corta o dedo e o sangue só aparece depois de um segundo.
As comissões foram ficando mais fracas, as reuniões menos frequentes, e os sindicatos ganharam um ar mais sério, mas mais distante também. No início nem percebemos. Depois, um dia, olhámos à volta e já não era nada como em 1974.
CdA: Olhando para trás, diria que o maior problema foi a força da reação ou a falta de uma linha revolucionária capaz de manter o impulso do povo?
F: A reação foi forte, claro, mas eu acho que se tivesse havido uma linha, mesmo que torta, mas firme, talvez as coisas tivessem ido mais longe.
Mas também éramos tantos e tão diferentes, era difícil pôr toda a gente a remar para o mesmo lado.
E havia medo. Não se diz isso muito, mas havia.
CdA: Para as novas gerações, que lição fica daqueles anos? Que importância tem perceber que a espontaneidade popular sozinha não garante a vitória de uma revolução?
F: É que liberdade não cai do céu. Parece frase feita, mas olha que não.
Nós vivíamos a contar tostões, a dividir sardinhas, eu lembro-me de pôr jornais dentro dos sapatos quando chovia porque a sola já nem existia, mas íamos à luta.
Hoje vejo jovens muito rápidos com os telemóveis, mas às vezes lentos a perceber o que está em jogo.
E depois ainda vêm com Ventura e o Chega, a falar em “Portugal”, “raça”, e a falar mal dos pretos e dos chinocas como se não fossem gente também, como é que é possível? Os portugueses na minha época fugiam até a França, ainda tenho lá família, muitos éramos também imigrantes. Esses racistas e fascistas andam aí, cheios de veneno, a tentar puxar o povo para trás, e muitos nem se dão conta! E os jovens, coitados, parece que não sabem o valor de lutar pelos direitos, de defender a liberdade, porque nunca sentiu a opressão na pele. Gente que vinha ter comigo na fábrica foi pega pela PIDE e nunca mais foi vista. Se soubessem como era, lutavam até ao fim, sem medo. O António, António era um amigo meu lá da fábrica, ele foi levado pra Peniche e nunca mais se soube dele. Liberdade não cai do céu, menino, não pode deixar esses fascistas ignorantes mandarem na nossa vida, cheios de ódio pra cá, ódio pra lá. Se não tiverem culhão, sustentar os tomates, se perde tudo outra vez.
