Foto: Reprodução/Redes sociais
Em 7 de Janeiro, agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) assassinaram Renee Nicole Macklin Good, mulher de 37 anos, durante uma operação federal na cidade de Mineápolis (Minesota, USA). O assassinato aconteceu a cerca de 1,6 km do local onde George Floyd, homem afro-americano, foi morto enforcado pelo Departamento de Polícia de Mineápolis (MPD).
Os agentes estavam a forçar sua saída do carro de forma agressiva, ao qual Renee recusou. A vítima, que estava em um automóvel, foi alvejada por diversos tiros dados à curta distância, colidindo com um poste em seguida. Segundo amigos, familiares e vizinhos, Renee era mãe de três e um membro muito respeitado de seu bairro.
Ainda na cena, os agentes da ICE cercaram o automóvel e impediram as massas populares de prestar ajuda e chamar socorro, incluindo a um médico que estava lá.
Resistência forma-se espontaneamente no local
Logo em seguida ao assassinato brutal, as massas que estavam ao redor começaram a concentrar-se espontaneamente no local e a confrontar as forças do ICE. A última tentou expulsar os manifestantes, mas foram rebatidos com uma saraivada de bolas de neve, chegando ao ponto das massas terem de formar uma barricada contra disparos de gás lacrimogéneo, spray de pimenta e balas de pimenta à queima-roupa feitos pelo ICE e Unidade Táctica de Patrulha Fronteiriça (BORTAC).
Na noite do mesmo dia, cerca de mil pessoas fizeram uma vigília no local do assassinato e, em seguida, marcharam pelas ruas rumo ao antigo prédio da 3.ª Delegacia do MPD, conhecido por ter sido incendiado durante os levantes nacionais quando do assassínio de George Floyd em 2020. Na demonstração, as massas denunciaram os crimes perpetrados pelo ICE imperialista em todo o país, e entoaram consignas como “Fora o ICE!”, “As ruas de quem? Nossas!” e “MPD, Ku Klux Klan e ICE: são o mesmo!”.
Protestos sacodem todo o país
Dirigentes e massas indicaram na manifestação do dia 7 em Mineápolis indicaram que prosseguirão as mobilizações, o que mostra a fúria das massas e o prolongamento dos protestos. No dia seguinte, 8, centenas de manifestantes na cidade queimaram uma bandeira do imperialismo ianque, demonstrando o ódio a ele e sua repressão das massas populares.
Entre o dia do ocorrido e hoje, grandes protestos contra o ICE e o assassínio de Renee estouraram em pelo menos outras 27 cidades do país, como Nova Iorque, Seattle, Detroit, Portland, São Francisco, Washington D.C., San Antonio e Filadélfia.
Apoio do velho Estado ianque à ação do ICE
A reação do imperialismo ianque foi de total apoio ao crime cometido pelo ICE. O presidente ultrarreacionário dos EUA, Donald Trump, defendeu os agentes que atiraram contra a mulher e alegou “legítima defesa”, supondo de que Renee “teria jogado seu automóvel contra eles”. Trump também culpou o que chama de “esquerda radical”, que estariam “a atacar agentes do ICE”. O seu vice, JD Vance, repercutiu essa escumalha, dizendo que “foi uma tragédia causada por ela mesma”.
A secretária do Departamento de Segurança Interna, Kristi Noem, pronunciou-se no monopólio mediático Twitter/X a taxar Renee de “terrorista doméstica”, dizendo que “[nós] estamos trabalhando com o Departamento de Justiça para processá-los (suposto atropelamento dos agentes) dessa forma (terrorismo doméstico)”.
Estes pronunciamentos têm eco nas recentes decisões institucionais judiciárias do imperialismo ianque. Em Setembro, o Supremo Tribunal dos EUA definiu que “etnia” e “idioma” podem ser considerados parâmetros para abordagens. Logicamente, tal medida serve para cercar ainda mais as massas, principalmente imigrantes, e ampliar a repressão à luta por direitos e liberdades democráticas.
A democracia liberal americana
Longe de ser uma política de governo de turno x ou y, a repressão brutal às massas operárias e populares americanas, particularmente negros e imigrantes, permeia toda a história do país e é, em suma, marca registada da existência do regime político ianque. Até poucas décadas atrás, diversos estados do país implantavam leis conhecidas como Jim Crow, que cerceavam diversos direitos e segregavam de forma animalesca afro-americanos.
Como analisa a imprensa popular e democrática brasileira A Nova Democracia, o que se vê é um aprofundamento da semelhança com sistemas como o apartheid sul-africano com uma diferente forma: em vez de placas “white only” (somente brancos), que delimitavam judicialmente o limite de circulação e acesso ao povo negro, há agentes federais do imperialismo ianque a cercear quem pode ou não circular livremente pelas ruas das cidades, movidos por critérios étnico-raciais.
Apesar de parecer ser algo característico do governo ultrarreacionário de Trump e das gestões republicanas, em nada é diferente o partido e gestões democratas. Além dos assassinatos contra gente da massa documentado em todos os seus períodos, o número de deportações também foi enorme. Durante a gestão de Barack Obama, mais de 3 milhões de pessoas foram deportadas, tendência seguida pelo governo de Joseph Biden.
Os centros de detenções do ICE, amplamente denunciados por organizações democráticas e de direitos do povo como campos de concentração para imigrantes, também registam altas taxas de mortes.
Seguindo a mesma política de intimidar e massacrar os povos oprimidos da América Latina, África e Ásia sob o manto de “combate ao narcoterrorismo”, o imperialismo ianque lança as mesmas bases de “combate ao crime” para militarizar as cidades americanas e reprimir o próprio povo pobre do país, que vem levantando-se em pujantes demonstrações de força, organização e unidade, cada vez mais contra não mais governo este ou aquele, mas a todo esse sistema de exploração brutal.
