Vitorioso tribunal popular de Barro Branco em Jaqueira (PE). Foto: AND.
Partilhamos matéria publicada originalmente na imprensa popular e democrática brasileira A Nova Democracia.
Camponeses posseiros do Engenho Barro Branco, localizado no município de Jaqueira, na Zona da Mata Sul de Pernambuco, denunciam um novo ataque do latifúndio, respaldado pelo Judiciário, por meio do leilão das terras que ocupam e trabalham há décadas. O imóvel, pertencente à falida Usina Frei Caneca S/A, foi colocado em leilão no âmbito de um processo de execução fiscal, apesar de se tratar de área historicamente ocupada por famílias camponesas em luta pela conquista da terra.
O leilão teve início em 11 de dezembro de 2025 e está previsto para se encerrar em 11 de fevereiro de 2026. A área foi avaliada em R$ 24,3 milhões, sem que sejam apresentados critérios claros para a fixação do valor. Há ainda a previsão de um segundo leilão, marcado para a mesma data, com duração relâmpago de apenas 30 minutos e desconto de até 40%, o que pode permitir a venda das terras a preço vil, favorecendo grandes latifundiários da região.
Fraudes reincidentes e favorecimento ao latifúndio
Segundo a denúncia dos posseiros, o leilão de Barro Branco repete um padrão já conhecido envolvendo a Usina Frei Caneca e seus associados, como a Agropecuária Mata Sul, ligada ao latifundiário Guilherme Maranhão. Casos anteriores, como o do Engenho Fervedouro, evidenciam práticas reiteradas de subavaliação de imóveis, ausência de critérios técnicos e venda das terras por frações mínimas de seu valor real, sempre com o objetivo de abater dívidas milionárias da usina às custas da expropriação das terras do povo.
Relatórios e denúncias anteriores apontam ainda o uso de “laranjas”, grilagem de terras e articulações judiciais para beneficiar os grandes latifundiários, enquanto os camponeses, ex-trabalhadores da usina e suas famílias seguem sem reparação pelos anos de exploração, trabalho não remunerado e violência sofrida.
Tribunal Popular desmascara crimes do latifúndio
Em outubro de 2025, os camponeses de Barro Branco realizaram um vitorioso Tribunal Popular para julgar os crimes cometidos pela Usina Frei Caneca e pela Agropecuária Mata Sul. O Tribunal, apoiado por organizações camponesas, jurídicas e populares de diversas regiões do país, condenou simbolicamente a Usina Frei Caneca a 22 anos de reclusão e a Agropecuária Mata Sul a 103 anos e 6 meses, tipificando crimes como fraude em leilões, grilagem, estelionato, crimes ambientais, constituição de milícia privada, tentativa de homicídio e violação sistemática de direitos trabalhistas.
O evento ocorreu sob forte intimidação policial, com blitz nas entradas da cidade de Jaqueira e vigilância permanente da comunidade, acionadas a pedido da Agropecuária Mata Sul. Mesmo diante de ameaças e tentativas de intimidação, o Tribunal Popular representou uma importante derrota política e moral para o latifúndio e fortaleceu a luta dos posseiros pela conquista definitiva da terra.
Organização camponesa e resistência ao despejo

Apesar da repressão, os posseiros de Barro Branco acumulam importantes vitórias por meio da organização e da luta combativa, apoiados pela Liga dos Camponeses Pobres (LCP). As famílias reconquistaram fontes de água tomadas pelo latifúndio, resistiram a ataques de grupos paramilitares ligados à organização terrorista “Invasão Zero”, ergueram o Acampamento Menino Jonatas e realizaram, por iniciativa própria, o julgamento popular dos crimes cometidos contra a comunidade.
O leilão em curso é denunciado como mais uma tentativa desesperada do latifúndio de retomar o controle da área e preparar o aparato do Estado para expulsar os camponeses das terras que trabalham, após sucessivas derrotas impostas pela mobilização popular.
Chamado à solidariedade e à luta
Diante da gravidade da situação, os camponeses e seus apoiadores convocam democratas e revolucionários a fortalecerem uma ampla campanha de solidariedade em defesa da luta dos posseiros de Barro Branco. A denúncia aponta que o leilão não passa de uma farsa jurídica a serviço dos grandes latifundiários e reafirma que somente a luta organizada do povo poderá garantir a conquista da terra.
Reproduzimos a seguir, na íntegra, nota do Comitê de Apoio à Luta dos Posseiros de Barro Branco/Jaqueira, denunciando o fraudulento leilão em andamento das terras do Engenho Barro Branco e convocando a solidariedade ativa em defesa da luta camponesa.
DENÚNCIA! O ENGENHO BARRO BRANCO ESTÁ SENDO LEILOADO PARA O LATIFÚNDIO!
O Comitê de Apoio à Luta dos Posseiros de Barro Branco traz uma denúncia urgente aos posseiros e apoiadores! Os camponeses denunciam que o Engenho Barro Branco foi colocado para leilão, a partir de um processo judicial de execução fiscal movido contra a Usina Frei Caneca S/A.
O leilão, que já se encontra em andamento, teve início no dia 11 de dezembro de 2025, e está previsto para encerrar no dia 11/02/2026. Com o imóvel sendo avaliado em R$24.393.400,00, não há nenhuma explicação de quais os critérios foram utilizados para fixar esse valor.
Também existe um segundo leilão, para caso o primeiro “não tenha compradores”. Neste segundo, que também já está marcado para o dia 11/02/2026, o imóvel poderá ser vendido por R$ 14.636.040,00 e possui uma duração relâmpago, de apenas 30 minutos! Na primeira proposta, o leilão tem a duração de 2 meses, já na segunda, as terras do povo serão vendidas com 40% de desconto, reduzindo o preço da terra de R$ 9 mil por hectare, para R$ 5400/hectare.
A Justiça de Pernambuco promove um sonho para os latifundiários ladrões de terra da Zona da Mata Sul, em uma ultrajante negociação contra os interesses dos camponeses de Barro Branco, com um leilão que está sendo realizado no objetivo de abater dívidas milionárias nunca pagas aos trabalhadores pela falida Usina Frei Caneca, aos bancos e credores, e com base nesse motivo, pretende vender as terras do povo para outros latifundiários por uma fração mínima do valor das dívidas, beneficiando somente a Usina Frei Caneca, a Agropecuária Mata Sul, de Guilherme Maranhão e outros laranjas.
Com o leilão, a “Justiça” repete mais uma vez suas arbitrariedades, como já fez no Engenho Fervedouro em 2021, quando leiloou outra propriedade pertencente à Usina Frei Caneca a preço de banana para abater suas dívidas.
Naquela situação, segundo informações do Repórter Brasil, o imóvel havia sido avaliado inicialmente em 2016, no valor de R$ 4,2 milhões. Porém, em 2020, o mesmo oficial de justiça fez uma segunda avaliação do imóvel, reduzindo a avaliação para R$ 1,6 milhão sem justificativa concreta e com métodos de dar inveja à qualquer geógrafo, sendo capaz de avaliar uma área de 527 hectares em apenas um dia!
Por fim, o imóvel foi vendido nas mesmas condições que tentam impor a Barro Branco, em um leilão com 40% de desconto, totalizando R$ 632 mil. Situação semelhante ocorreu com as terras da Usina Estreliana, que também pertence à família de Albuquerque Maranhão, do atual rendeiro de terras da Usina Frei Caneca.
Junto à Agropecuária Mata Sul, ambas as empresas já foram investigadas em relatórios do Ministério Público do Trabalho pelo uso de laranjas para fraudar leilões de terras da Usina Estreliana, e apontam mais uma vez para impunidade do latifúndio pelo roubo de terras dos camponeses, assassinato de posseiros e grilagem, sempre acobertados e/ou facilitados pela “justiça” e os órgãos do Estado!
Os camponeses de Barro Branco vêm travando uma fervorosa luta pela conquista de suas terras e construindo vitórias contundentes contra o latifúndio de Guilherme Maranhão e da Usina Frei Caneca. O leilão das terras do Engenho Barro Branco não passas de mais uma farsa do latifúndio e outra ataque para tentar desmobilizar e impedir a luta dos camponeses!
Foi a partir da mobilização audaz e combativa dos posseiros, apoiados pela Liga dos Camponeses Pobres (LCP) que os posseiros conseguiram se lançar no caminho para a verdadeira conquista da terra, com a Revolução Agrária!
Se fortalecendo no caminho da luta, os camponeses reconquistaram suas cacimbas d’agua tomadas pelo latifúndio, realizaram a resistência feroz contra 50 paramilitares do bando terrorista “Invasão Zero”, ergueram o Acampamento Menino Jonatas e julgaram eles mesmos os crimes da Usina Frei Caneca e da Agropecuária Mata Sul, com o vitorioso Tribunal Popular.
O leilão está sendo feito em mais uma tentativa desesperada de expulsar os posseiros de Barro Branco de suas terras. O latifúndio se planeja para comprar a propriedade da falida Usina Frei Caneca e preparar o aparato de Estado para despejar os camponeses posseiros de Barro Branco e ex-trabalhadores da usina. Tentam preparar suas fraudes e torcer as leis ao seu favor para um novo ataque, pois sentem como a incansável e sagrada luta dos camponeses pela terra está condenada a vencer e se amedrontam com o chão tremendo sob os seus pés!
Denunciamos a tentativa torpe para tomar as terras do povo e convocamos a todos os apoiadores, democratas e revolucionários à erguer uma poderosa campanha em defesa da luta dos posseiros de Barro Branco! Sigamos junto aos posseiros de Barro Branco, ainda mais combativos e fortalecendo cada vez mais às mobilizações pela conquista de todas as terras da Usina Frei Caneca para o povo!
ABAIXO O LEILÃO DAS TERRAS DE BARRO BRANCO!
TODAS AS TERRAS DA USINA FREI CANECA SÃO DO POVO!
VIVA A REVOLUÇÃO AGRÁRIA! VIVA A LCP!
Comitê de Apoio à Luta dos Posseiros de Barro Branco/Jaqueira
