Iranianos incendeiam bandeira do EUA em 2024. Foto: Morteza Nikoubazl
Partilhamos importante matéria da imprensa popular e democrática brasileira A Nova Democracia sobre os protestos que estão a ocorrer no Irão. Fizemos alterações linguísticas para facilitar a leitura por portugueses.
Nas primeiras duas semanas de 2026, prolongando-se desde o final de Dezembro de 2025, uma onda de protestos percorreu mais de 180 municípios e se espalhou por todas as 31 províncias do Irão, e seguem até o momento. Grandes concentrações estão a ocorrer em importantes centros do país, como a capital Teerã, Mexede, Isfahã e Xiraz. A imprensa reacionária, articulada com o aparato conspirativo do imperialismo ianque em sua agressão à nação iraniana – inaugurada mais recentemente, de forma direta, com o bombardeio das instalações nucleares do país persa –, tem inflado o assunto e lançado sua contrapropaganda “contra a autocracia”; em consequência, o canibal Donald Trump tem lançado ameaças de novos bombardeios ou ações de agressão direta contra o Irã, escorado nesses acontecimentos, enquanto no país, o ex-herdeiro da dinastia Xá, Reza Palhavi, se pronuncia liderança das manifestações, cooptando a mobilização inicialmente espontânea das massas para o caminho reacionário e pró-ianque.
Em resposta, nas últimas semanas, o regime encabeçado pelo aiatolá Ali Khamenei tem reagido aos protestos com fortes denúncias de que agentes secretos do Mossad (sionismo) e do imperialismo ianque estão a atuar no meio das mobilizações para desestabilizar o país. O ministro Abbas Araghchi, do governo iraniano, afirmou que o Irão possui evidências e documentos mostrando que agentes do Mossad que falam persa estão deslocados em Teerã para monitorar os protestos e influenciar os eventos, e que serão divulgadas confissões, documentos e fotografias que comprovam esse envolvimento. Investigações da Guarda Revolucionária do Irão divulgaram que cerca de 600 agentes do serviço de inteligência sionista (Mossad) operam no Irão, instigando e coordenando os protestos que se espalham pelo país. Também foi noticiado pela imprensa local que o aparato de guerra psicológica do Mossad tem atuado freneticamente na rede Internet para impulsionar os distúrbios através de robôs.
Durante a onda de distúrbios, na província de Khorasan do Norte, dois indivíduos foram detidos pelas forças iranianas e foram capturados em sua posse equipamentos de espionagem, armas de fogo e munições; nas imagens que circulam dos confrontos, abundam vídeos de unidades irregulares entre manifestantes, o que indica que haja uma força fortemente organizada a atuar nos protestos.
A atuação do Mossad em missões secretas contra o Irão não é novidade. Além de aniquilamento e sabotagens contra o sistema nuclear iraniano e sua intelligentsia científica, eles atuam também na construção de uma rede de agentes locais.
Em setembro de 2025, o chefe do Mossad, David Barnea, declarou publicamente que a agência tem redes de infiltrados no país: “O Mossad tem capacidades operacionais muito fortes, ainda mais criativas e poderosas do que antes, especialmente dentro do Irão e mesmo no coração de Teerã”, disse ele, em cerimônia junto ao primeiro-ministro, o genocida Benjamin Netanyahu. Por seu turno, o Irão, em relatórios, já denunciou que o Mossad estruturou uma base secreta no país, antes da ofensiva militar sionista na guerra com ataques aéreos. As unidades do Mossad colocaram sistemas (incluindo drones explosivos) próximos a sistemas de defesa aérea e mísseis, que foram ativados quando aeronaves sionistas iniciaram ataques.
Marchas levantam a palavra de ordem ‘Morte à América’, em referência ao imperialismo ianque
Em resposta à situação atual, delicada, milhares de massas marcham também contra o imperialismo ianque, mobilizadas pelo governo, clamando pela unidade contra o imperialismo ianque e o sionismo.
Segundo o monopólio de imprensa The Guardian, a capital Teerã promoveu um grande ato central em 12/01, reunindo dezenas de milhares de pessoas na Praça Enqelab. O protesto foi convocado sob a consigna “Morte à América” e contra o terrorismo ianque-sionista. A manifestação contou com discursos de altas figuras do Estado iraniano, que buscam canalizar tais mobilizações para capitalizar politicamente ao governo, como o presidente do parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, que acusou o EUA e a entidade “Israel” de conduzirem uma “guerra em múltiplas frentes” contra o Irão: económica, psicológica, militar e de segurança.
Além de Teerã, atos anti-imperialistas foram registrados simultaneamente em diversas capitais provinciais e grandes centros urbanos, entre eles Mexede, Isfahã, Xiraz, Qom, Tabriz, Ahvaz, Quermanxá, Iazde e Caraje, segundo relatos da imprensa estatal iraniana e veículos regionais. Em várias dessas cidades, as manifestações ocorreram em praças centrais, após orações coletivas ou convocações de sindicatos oficiais, associações estudantis ligadas ao regime e organizações de bairro.
Os distúrbios têm capilaridade entre setores das massas
Apesar das fortes evidências de operativos secretos do Mossad, é inquestionável o peso de massas nos atuais distúrbios. A princípio, as manifestações tomaram a forma de um levantamento espontâneo, ocasionado pela piora acentuada das condições de vida das massas empobrecidas, mas logo foram arrebatadas pelos operativos secretos sionistas e pelos representantes políticos reacionários pró-ianque em proveito da agressão imperialista que atuaram em seu seio e assumiram sua direção. Assim, as manifestações, inicialmente calcadas em reivindicações económicas imediatas, saltaram para agitações políticas contra o governo e impulsionadas, no grau de violência, pela confluência dos operativos sionistas e da repressão.
No atual estágio, a julgar pela continuidade dos distúrbios e o peso de massas neles, tudo indica que os aparatos sionistas lograram fundir num mesmo movimento ambas as tendências diversas, isto é, os aparatos sionistas lograram assumir a direção do movimento ou de sua maior parte. Não sem razão, os próprios dirigentes iranianos repetem que o “descontentamento social legítimo” foi explorado pelo EUA e pela entidade sionista para converter manifestações económicas em sabotagens contra o país.
Na medida em que parece ter havido êxito do Mossad em unir-se às manifestações e convertê-las em distúrbios, ao governo iraniano não parece haver escolha que não o caminho da ampliação do raio de repressão e das prisões em massa que, embora concorra com os objetivos dos agressores, na tentativa de desbaratar os distúrbios. Não há um número oficial de mortos e presos: o governo informa centenas de detidos, de forma geral, e dezenas de agentes policiais mortos; agências do imperialismo dizem que foram mais de 10 mil pessoas presas e 500 mortos, apuração inverossímil, dada a ausência de Internet, e de cuja fonte se pode deduzir com certeza se tratar de guerra psicológica contra o país persa.
A crise do capitalismo burocrático e os efeitos das sanções são a base económica dos atuais distúrbios
As reivindicações económicas levantadas pelas massas iranianas nos iniciais protestos, logo convertidos nos atuais distúrbios, têm forte lastro como consequência da crise do capitalismo burocrático e, agravada, pelas sanções ianques, em função de sua posição de apoio às forças anti-imperialistas e antissionistas no Oriente Médio, em função de os objetivos estratégicos destes ameaçarem fortemente a existência do regime ou mesmo a integridade nacional iraniana a médio prazo.
A produção e exportação de petróleo, que historicamente representaram cerca de 65,5% da receita do governo e 57% das exportações totais em 2024, se reduzem em função das sanções ianques. As sanções dos demônios ianques penalizam cidadãos, empresas e bancos do EUA que mantenham relações económicas com o Irão, assim como, às empresas que façam negócios com setores alvos das sanções. Não obstante, os ianques incluíram entidades iranianas estratégicas na lista de Specially Designated Nationals, que bloqueia ativos e exclui o acesso ao sistema financeiro internacional. Quanto ao petróleo, as empresas e países que adquirirem petróleo iraniano ficam sujeitos à exclusão do sistema financeiro ianque, multas e bloqueio de ativos, além de muitas outras implicações. Desta forma, o governo do Irão exporta petróleo em severas condições, algumas vezes através de formas camufladas, obrigado a fornecer descontos elevados, com maior custo logístico e restrito no “acesso ao mercado”. Não bastasse, no dia 12/01, o governo ianque impôs novas sanções: tarifa de 25% sobre todos os produtos de qualquer país que fizer negócios com o Irão.
Dados oficiais apontam que a economia iraniana atravessa um de seus piores momentos. A pesquisa da OPEC/Reuters indica que em dezembro de 2025 a produção de petróleo do Irão caiu cerca de 100 mil barris por dia (bpd) associada a novas medidas de sanções do Grande Satã, o que contribuiu para a queda da produção total. A moeda do país, o rial iraniano, sofreu uma desvalorização drástica, com índices de taxas de câmbio a atingir 1,4 milhão de riais iranianos por um dólar em 2026. A inflação disparou como efeito acumulado da desvalorização da moeda e das restrições ao comércio e às sanções contra a siderurgia iraniana: 48,6% em outubro de 2025, considerando ano a ano (segundo o Centro Estatístico do Irão). Tudo pressiona ainda mais os custos de importação e o preço de produtos básicos, já que o Irão é um país de relativa industrialização, mas voltada para a exportação de bens primários (sobretudo, petróleo) sob o monopólio latifundiário da terra e de economia subordinada às cadeias de produção sob controle do capital financeiro, o imperialismo. Segundo o Banco Mundial, a projeção do PIB do Irão é no sentido da retração económica: queda de -1,7% em 2025, e expectativa de -2,8% em 2026. Por essa razão, fontes oficiais iranianos estimam aproximadamente 33% da população abaixo da linha de pobreza.
Apenas uma direção proletária poderia garantir a plena unidade anti-imperialista
As sanções económicas contra o país persa, assim como as ações militares convencionais de caráter pontual confluentes com ações militares de caráter “assimétrico” (não convencional), formam parte da estratégia do imperialismo ianque e do sionismo para enfraquecer o regime iraniano, criar dessa forma condições para impor uma subversão no regime e, desta feita, desbaratar o que hoje é uma importante fonte de apoio às lutas armadas anti-imperialistas na região, por conveniência. O regime do Irão é alvo dos agressores ianques e sionistas pela sua posição de apoio às forças anti-imperialistas na região, posição à qual está obrigado a manter, já que o regime só se sustenta internamente ancorado em políticas anti-ianque e no autoapoio ao sentimento anti-imperialista das massas iranianas, e regionalmente, da mesma forma, em relação às forças guerrilheiras anti-imperialistas no Oriente Médio. Portanto, é inequívoco que a nação iraniana, submetida à agressão contínua económica e crescentemente alvo das agressões militares diretas do imperialismo ianque articulado com o sionismo nos moldes da “guerra de baixa intensidade”, está sob risco severo de instabilização, mesmo de guerra civil, e que tal fenômeno serve objetivamente aos planos dos agressores.
Todavia, como regime político da grande burguesia persa e atado à grande propriedade fundiária, o regime encabeçado pelo aiatolá Ali Khamenei se apoia necessariamente no capitalismo burocrático, o qual estabelece a exploração e opressão contra as quatro classes populares da sociedade iraniana: o campesinato, o proletariado, a pequena burguesia e a média burguesia. Essa relação de exploração interna, e o fato de sua economia ser de débil industrialização, agroexportadora e voltada à satisfação das cadeias produtivas do capital financeiro (imperialismo), junto ao fato da agressão ainda não se manifestar com prejuízo territorial, torna o Irão uma sociedade naturalmente cindida e de frágeis alicerces, tanto sociais como económicos, cujas sanções e pressões do imperialismo atingem severamente sua estrutura.
Mesmo quando a contradição contra o imperialismo agressor se acentua e passa a assumir a principalidade, em que tais contradições internas vão passando à secundariedade, ainda assim, podem e são ativamente exploradas pelos agressores, no objetivo de conjurar a unidade da frente de resistência nacional e instabilizar o país.
A mais sólida e firme unidade anti-imperialista do país requer uma direção proletária na frente anti-imperialista, a qual, por apoiar-se nas transformações revolucionárias (económicas, políticas e culturais) em proveito do proletariado, do campesinato, da pequena e média burguesias (burguesia nacional), torna-se capaz de aplicar com profundidade a democracia na resolução das contradições no seio do povo: a democracia no económico (melhoria das condições de vida das amplas massas, reforçando a unidade da frente anti-imperialista), no político (liberdade para todas as forças e grupos anti-imperialistas) e no militar (mobilização audaz das massas armadas). Apenas a aplicação de um programa de nova democracia é capaz de garantir, em qualquer condição, a unidade anti-imperialista e da resistência nacional em caso de agressão. O regime teocrático do Irão, embora com posição de apoio às forças anti-imperialistas regionais nas atuais circunstâncias, inclusive para sua sobrevivência, torna-se vulnerável às manobras dos agressores por não estar disposto a aplicar com profundidade, a essa altura, as medidas democráticas indispensáveis no interno, já que se apoia no capital burocrático, comprador e feudal, e na exploração das massas populares iranianas. O que as tornam vulneráveis, sem direção proletária, às manipulações das forças reacionárias e agressoras.
Deste modo, o sucesso do Mossad em cooptar e converter os protestos iniciais das massas iranianas em distúrbios a serviço dos agressores imperialistas estava já, como possibilidade, determinado pelo fato do regime iraniano não ser um regime proletário e pelo fato da direção política da frente anti-imperialista não ser uma direção proletária, além do fato do regime iraniano ainda não estar em uma condição de agressão tal em que certos critérios proletários são imperativos para a sobrevivência da causa nacional (caso da Resistência Nacional Palestiniana, ou de outros processos cujo grau de agressão torna obrigatório, para a sobrevivência e vitória da resistência, aplicar com radicalidade o programa da resistência). Assim sendo, o regime está obrigado a estabelecer certa repressão e certo controle contra as massas populares na atual situação de perigosos distúrbios; como, de resto, mesmo quando não há distúrbios, o regime exerce um controle estatal ostensivo contra as organizações das massas trabalhadores, aplaca as liberdades da classe operária e do campesinato, na medida em que os teme, já que se apoia na exploração dessas classes.
Os protestos recentes expressam precisamente essa dinâmica. As massas populares iranianas, que em momentos de acirramento da agressão externa se unem ao governo na disposição de enfrentar o imperialismo e o sionismo, outrora voltam-se para suas condições concretas de vida quando o nível de temperatura da confrontação externa relativamente diminui, tornando-se viável a exploração dessas contradições pelos agentes secretos do imperialismo. Do ponto de vista da luta anti-imperialista, uma eventual mudança de governo no Irão, fruto desse processo e tanto mais na ausência de uma força proletária a pugnar pela direção do movimento de massas e pela concreção de uma estratégia revolucionária, corresponderia apenas aos interesses do imperialismo ianque e do sionismo como passo adiante para isolar a luta armada de resistência nacional na Palestina e em todo o chamado Oriente Médio Ampliado.
A decisão do regime de impulsionar as manifestações anti-imperialistas parece ser uma tentativa de isolar os distúrbios e desmascarar as manobras da reação interna conluiada com os agressores externos, ao passo que busca reforçar sua própria posição. A grande questão, ao que parece, é saber se o Grande Satã pretende aproveitar a ocasião destes distúrbios para uma nova ofensiva contra a nação iraniana, com alguma ação pontual para atingir algum objetivo parcial que debilite o regime, ou se não o fará. De todo modo, os acontecimentos apenas demonstram, novamente, que o período no qual vivemos é daqueles de grandes cataclismos sociais, fortes erupções, dos quais, em poucos anos, podem se impor enormes transformações. É uma nova época de revoluções.
