Foto: António Cotrim/Lusa
No dia 20 de Janeiro, foram detidos 37 integrantes do grupo neonazi 1143, um bando conhecido por promover de forma sistemática ataques reacionários contra imigrantes, ciganos e diversos outros setores dos povos que vivem em Portugal. Em conjunto, foi apreendido material de propaganda alusivo à ideologia neonazi, bem como armas diversas e equipamento tático.
Em comunicado, a Polícia Judiciária (PJ) descreveu os detidos (com idades entre os 30 e os 54 anos) como indivíduos com “vastos antecedentes criminais e ligações a grupos de ódio internacionais”, inseridos numa estrutura “hierárquica e fortemente consolidada”. Entre as imputações contam-se ofensas à integridade física qualificada, ameaças, coação agravada e posse de armas de fogo.
Informações repercutidas nos monopólios de imprensa relatam que elementos do grupo estiveram envolvidos em sucessivas vagas de ataques contra massas populares, principalmente as mais empobrecidas e imigrantes. A 5 de outubro de 2025, oito indivíduos ultrarreacionários ligados ao 1143 cercaram dois cidadãos indianos numa área de serviço, espancando-os com bastões, pontapés e murros, ao mesmo tempo que proferiam dezenas de insultos racistas.
Noutro episódio, o neonazi Bruno Costa, associado ao 1143, dirigiu-se à jornalista Amanda Lima (que cobre temas de imigração), através de chamadas telefónicas e redes sociais, chamando-lhe “macaca” e proferindo ameaças de cariz racista. Estes episódios estiveram na origem da abertura de inquéritos por associação criminosa, racismo e incitamento à violência.
O que é o “Grupo 1143”?
O bando ultra-reacionário 1143 emerge no meio das claques do Sporting Clube de Portugal, em particular no seio da Juventude Leonina, historicamente ninho de tradições reacionárias. O cabecilha do grupo, Mário Machado, já então era figura bem conhecida no submundo reacionário e fascista.
Entre 2000 e 2017, Mário Machado acumula sucessivas condenações por agressões racistas, incluindo o caso de junho de 1995, que culminou no assassinato do jovem operário caboverdiano Alcindo Monteiro, bem como por crimes de extorsão. Grande parte dessas penas é cumprida até perto de 2017. O desmantelamento do grupo fascista Hammerskins, em 2016–17, também liderado por Machado, força um recuo temporário do 1143.
Sob a sua mentoria persistente, a escória do 1143 reaparece sob a máscara de grupo “ultranacionalista”. A partir do final de 2023 e ao longo de 2024 intensificam-se as publicações online sobre “imigração” e “identidade nacional”, bem como marchas em várias cidades (Lisboa, Porto, Braga, Guimarães, entre outras) sempre marcadas pela retórica chauvinista da extrema-direita.
Em Abril de 2025, em Lisboa, durante uma manifestação da extrema-direita na Baixa, elementos ligados ao 1143, incluindo Mário Machado, envolvem-se em confrontos com a polícia. Machado é detido após distúrbios públicos. Em Outubro, um ataque reacionário violento contra um imigrante indiano na área de serviço de Aveiras da A1 é cometido por elementos ligados ao grupelho.
Neste mês de janeiro, 37 de seus membros são detidos (34 dos quais com os nomes divulgados no final desta matéria) e outros 15 têm o mesmo caminho, por associação criminosa e crimes de ódio contra as massas. Entre os principais alvos da detenção estão o próprio Mário Machado, já preso desde Maio de 2025 para cumprimento de pena por incitamento ao ódio reacionário em plataformas digitais, e outros membros com extensos registos de violência contra as massas.
Os crimes cometidos pelo grupelho
O 1143 dedica-se sobretudo a ações de rua de carácter cobarde e intimidatório, dirigidas contra sectores das massas mais esmagados pela repressão, cujos elementos estão indefesos e desarmados. Para além das agressões referidas, membros do grupo participaram em manifestações promovidas por movimentos de extrema-direita com o objectivo de incitar o chauvinismo contra imigrantes. Nas plataformas de média, difundiam slogans como “Reconquistar Lisboa aos mouros” ou “Stop Islam”.
O seu arsenal propagandístico inclui vídeos e panfletos neonazis; aquando da prisão preventiva do já recorrente Mário Machado, foram apreendidas bandeiras e materiais alusivos ao ano de 1143 (fundação de Portugal), combinados com simbologia nazi, incluindo cruzes suásticas.
Segundo as investigações da PJ, os membros do 1143 propagavam uma versão da conhecida teoria da conspiração reacionária da “islamização da Europa”, fazendo apologia da chamada “grande substituição”. O discurso do grupo alinhava-se assim com as linhas ideológicas dos círculos mais reacionários do Chega, funcionando não raras vezes como seu braço de choque informal, e de outros grupos que exploram a retórica chauvinista nas redes sociais.
Alimentados pelo imperialismo e pela conivência do velho Estado português
O caso do 1143 está longe de ser isolado ou espontâneo. Insere-se num contexto mais amplo de reforço da extrema-direita na Europa, e em Portugal em particular, agravado pela atual crise geral de decomposição do imperialismo.
Tem sido amplamente assinalado o aumento significativo de ataques reacionários no país, sobretudo contra migrantes, ciganos, pessoas LGBTQIA+ e outros sectores que vivem e trabalham em Portugal. É neste terreno fértil que grupos como o 1143 ganham fôlego, recrutando tanto reacionários em geral como sectores ressentidos da pequena burguesia urbana. Importa sublinhar que este fenómeno não surge de forma orgânica, mas é alimentado pelo velho Estado como mecanismo de intimidação e contenção das massas populares.
Tal torna-se evidente pela presença direta de agentes estatais no seio do grupo, bem como ligações e irmanações muito bem documentadas com partidos políticos. Numa repetição de episódios anteriores, como o caso do grupo paramilitar “Movimento Armilar Lusitano” (MAL), foi confirmado que agentes da Polícia de Segurança Pública em Setúbal integravam o 1143. Fontes oficiais referiram igualmente a detenção de militares.
Vários atuais e antigos membros do Chega, partido de André Ventura, surgem associados ao 1143, tendo elementos e simpatizantes do partido participado na divulgação ou promoção de ações do grupo. A advogada do grupo, Mayza Constantino, é uma notória reacionária, apoiadora do chefete da extrema-direita brasileira Bolsonaro e, até Outubro de 2025, foi parte das fileiras do Chega.
Esta convergência demonstra que o 1143 funciona, na prática, como um grupo paramilitar, cujos braços políticos reconhecidos e integrantes do velho Estado português são partidos como o Chega. São uma força de retaguarda, que aplica diretamente ações armadas reacionárias, que complementam a agenda da extrema-direita parlamentar.
A recente operação da PJ, longe de atingir profundamente o grupo, expôs apenas a face mais visível, realizando uma poda seletiva das organizações reacionárias para as manter sob controlo. Afinal, ainda que o velho Estado e seu aparato repressivo faça esse movimento, muito para dizer que “algo faz”, tem em seu seio os mesmos elementos políticos que permitem o aninhamento dessas forças, como os partidos políticos da extrema-direita.
A falsa “esquerda” oportunista e eleitoreira, que encabeça do PS ao “PCP”, BE e PCTP/MRPP, ainda que se proclame campeã na oposição ao avanço da extrema-direita, na prática não se opõe materialmente, somente em sua retórica, que é constantemente rebaixada pelo seu apreço à legalidade eleitoreira. Limitam-se a votos no parlamento (o mesmo que abriga a extrema-direita!) e, no melhor possível, dirigem manifestações nas quais podem controlar a rebelião das massas, cerceando seus elementos mais combativos.
A crescente reacionarização de sectores da sociedade portuguesa, impulsionada pela crise geral do imperialismo e agravada pela complacência do velho Estado face à atividade fascista, deve ser combatida de forma firme pelas massas oprimidas em Portugal, que têm o dever de se organizar, de se unir em firmes princípios proletários para denunciar a fascistização da sociedade, de fazer frente aos múltiplos inimigos do povo e, mais do que isso, combatê-los materialmente.
