Fonte: SIC Notícias
Uma sucessão de tempestades violentas atingiu Portugal desde o final de janeiro, deixando pelo menos cinco mortos, milhares de desalojados e prejuízos de milhares de milhões de euros, com Leiria no epicentro da destruição. A passagem das depressões Ingrid, Joseph, Kristin e agora Leonardo expôs não apenas o agravamento da crise climática, mas também a negligência estrutural do velho Estado português, incapaz de prevenir, responder e proteger as massas trabalhadoras diante de fenómenos extremos cada vez mais frequentes.
Depressões consecutivas há quase três semanas
Durante as últimas semanas Portugal tem enfrentado um comboio de depressões sem precedentes: as tempestades Ingrid, Joseph e sobretudo a devastadora Kristin e agora a depressão Leonardo, que teve início no dia 3 de fevereiro. O país foi atingido desde o dia 22 janeiro por estas depressões consecutivas. A mais violenta, Kristin, entrou pelo litoral de Leiria e espalhou-se rapidamente para Coimbra, Santarém e Lisboa, trazendo rajadas de vento superiores a 200 km/h. A Proteção Civil portuguesa registou mais de 5 400 ocorrências provocadas pela passagem de Kristin até às 22h de sexta-feira, envolvendo cerca de 18 000 operacionais em todo o país. No balanço oficial, pelo menos cinco pessoas morreram diretamente atribuídas à tempestade. Nas zonas mais afetadas, como Leiria, milhares de residentes ficaram sem eletricidade nem água potável, forçados a viver sob lonas improvisadas em um dos maiores desastres climáticos recentes na história portuguesa.
Como noticiou a Proteção Civil, as ocorrências mais frequentes envolveram quedas de árvores (mais de 3 300 casos) e de estruturas (mais de 1 100). Em Leiria e nas regiões vizinhas, ruas inteiras ficaram bloqueadas, pontes foram cortadas e bairros inteiros perderam telhados e fachadas. Centenas de edifícios públicos e escolas encerraram por falta de condições, linhas ferroviárias paralisaram, e muitos concelhos ativaram planos de emergência. Os relatos dos populares realçam a dimensão da tragédia: “Connosco foi só o telhado. Há pessoas que não têm paredes”, descreveu uma moradora ao monopólio de imprensa “Diário de Notícias”, enquanto ajudava a montar lonas de cobertura em Pousos (Leiria).
A relação entre a crise climática e a velha Ordem
Estes eventos extremos não podem ser explicados apenas como fenómenos isolados. Climatologistas avisam há anos que as mudanças climáticas estão a tornar os temporais mais frequentes e intensos. Segundo o investigador Filipe Duarte Santos, já há “mais temporais destes em 10 anos do que havia no passado” e a tendência é que sejam cada vez mais violentos, com precipitações e ventos mais fortes. Na Europa, a combinação de correntes frias vindas do Ártico e a corrente de jato mais estática tem conduzido a verdadeiros “comboios” de tempestades, uma dinâmica agravada pelo aquecimento desigual: o Ártico aquece mais rápido que o resto do planeta, enfraquecendo a barreira polar e levando ar frio para latitudes médias.
Além disso, os oceanos quentes alimentam essa fúria meteorológica. Estudos apontam que cada aumento de 1°C na temperatura da superfície do mar (já registado desde 1900) adiciona “uma quantidade de energia brutal” ao sistema climático, potenciando chuvas torrenciais e ventos extremos. Em suma, como resumiu o climatologista Carlos Câmara, as alterações climáticas aumentam a frequência e severidade dos fenómenos extremos. Estes eventos em série – de Ingrid a Leonardo (cujo verdadeiro potencial destrutivo só estará claro nas próximas semanas) – são sintomas de um clima em ruptura.
É impossível desvincular estes acontecimentos do seu carácter de classe. O aumento do dióxido de carbono, o desmatamento e a exploração intensiva da natureza, impulsionados pela superexploração capitalista dos recursos à escala global, são fatores centrais de alterações climáticas cada vez mais caóticas. Estas, por sua vez, não afetam de forma igual toda a população: as zonas mais pobres são desproporcionalmente atingidas pelos desastres climáticos, como ficou patente nas freguesias de Pousos, Barreira e Cortes, que estão entre as áreas mais pobres e mais afetadas do concelho de Leiria. Este modo de produção não só agravou as alterações climáticas, como tornou fenómenos como as depressões de janeiro cada vez menos raros, fazendo recair os seus impactos sobretudo sobre as massas trabalhadoras e exploradas.
Falhas estruturais do velho Estado português
No meio desta catástrofe climática, o processo de falência geral do velho Estado português agravou ainda mais os danos. O velho Estado tem sistematicamente subinvestido em prevenção e adaptação. Segundo um estudo do McKinsey Global Institute, o velho Estado português dedica apenas cerca de 200 milhões de dólares por ano à adaptação, 43% do que seria necessário para proteger o país de fenómenos extremos. Consequentemente, apenas 22% da costa exposta a cheias está protegida e menos de 1/3 das linhas elétricas em zona de risco de incêndio estão enterradas. E se o aquecimento atingir 2°C até 2050, cerca de 96% da população estará exposta a riscos climáticos sem defesas adequadas.
Apesar dos alertas, a execução da política climática interna vive num “vazio operacional” crítico. A Lei de Bases do Clima, aprovada há quatro anos, ainda não produziu planos municipais de ação, nem a estratégia industrial verde ou os orçamentos setoriais prometidos. Novamente, não rompeu com as promessas vazias de melhora para trazer melhora real à vida das massas. Enquanto isso, no Orçamento de Estado foi aprovado um apoio simbólico de apenas 25 milhões de euros para “infraestruturas críticas” (instalação de painéis solares em bombeiros, hospitais, etc.) – montante claramente irrelevante face aos milhares de telhados arrancados, escolas inoperacionais e estruturas danificadas.
O resultado deste quadro de negligência prévia foi visível nas ruas. As massas trabalhadoras vivenciaram dias negros com comunicações interrompidas, filas por combustível e água, e crianças sem escola. A ausência de um plano nacional de adaptação deixou muitos à deriva. Como observou uma moradora de Leiria, só tiveram sorte por saberem das lonas gratuitas no pavilhão – até ali, não havia informação nem apoio eficaz. A resposta do velho Estado foi recebida com críticas: faltaram lideranças visíveis e uma coordenação ágil. A tempestade Kristin, a mais destrutiva até o momento, serviu como outro indicativo da Crise Geral do Imperialismo e de sua manifestação dentro do velho Estado português, enquanto a mudança climática testou infraestruturas e sistemas de emergência, também expôs falhas de mais um governo de turno aparelhado pela burguesia burocrático-compradora e pelo latifúndio, e seu total distanciamento dos povos em situação de vulnerabilidade.
O custo humano e a mazela sobre as massas trabalhadoras
Mesmo sem contabilizar a reconstrução, as contas do desastre são já astronómicas. O governo de turno declarou estado de calamidade em 69 concelhos. Em Leiria, epicentro da crise, estimam-se perdas e danos de 1,5 a 2 mil milhões de euros só naquela região. Centenas de habitações ficaram irreparáveis e indústrias (principalmente pequenas e locais) perderam linhas de produção inteiras. Em termos agregados, Portugal está entre os países mais penalizados do continente europeu por desastres naturais: ocupa o 7.º lugar em prejuízos económicos totais e o 5.º em mortes prematuras, segundo a Agência Europeia do Ambiente. No conjunto de eventos dos últimos 17 anos (cheias, incêndios, tempestades) foram gerados mais de 166 500 sinistros seguros, perfazendo cerca de 800 milhões de euros em indemnizações.
Mas o custo maior é social. Quem vive nas áreas afetadas enfrenta agora semanas de incertezas: abrigos precários, desemprego temporário, contas médicas por esborões – tudo agravado pela sensação de abandono. A tragédia revelada em Leiria espelha desigualdades: bairros periféricos e comunidade imigrante ficaram desprotegidos, enquanto não faltaram discursos oficiais de otimismo despreparado.
A crise climática está a bater às nossas portas. E, como muitos já frisaram, não basta deixar os cidadãos “se desenrascarem” com SMS de alerta, nem tratar cada episódio como caso isolado. Porque as depressões de janeiro e fevereiro são sinais claros de que o modelo vigente de exploração económica e social se tornou insustentável. Num momento em que famílias aguardam respostas que não chegam, a verdadeira lição é de que é preciso repensar a relação entre o velho Estado e a velha Ordem e o risco climático, ampliando redes de solidariedade e autodefesa entre as massas e denunciando o caráter não apenas económico, mas sobretudo político de tais acontecimentos.
