Foto: Banco de dados Nova Aurora.
A história de Portugal, especialmente em seus capítulos mais recentes, revela um quadro ilusório de soberania, desmentido por uma submissão sistemática aos interesses de potências opressoras, que atuam contra a pátria com a anuência das classes dominantes. Em plena crise geral do imperialismo, que assola os quatro cantos do mundo, o velho Estado português intensifica uma política externa voltada à subordinação a essas potências, sobretudo ao imperialismo ianque. O saque das riquezas das antigas colónias africanas para alimentar França e Inglaterra, o apoio incondicional ao “Estado” sionista de Israel na repressão genocida do povo palestiniano e a recente entrega da Base das Lajes (Açores) como plataforma para ataques ianques no Médio Oriente são apenas alguns exemplos de uma longa história de submissão a nações imperialistas. Esta política, contudo, é defendida apenas por um secto de inimigos do povo, nomeadamente a grande burguesia burocrático-compradora e os latifundiários; as massas portuguesas seguem cada vez mais rapidamente na contramão deste posicionamento, denunciando as agressões imperialistas e assumindo uma postura firme de luta contra o capitalismo burocrático, o regime de semisservidão no campo e a exploração dos povos de Portugal e do mundo.
A recente entrega da Base das Lajes (Açores), ainda nos últimos dias de fevereiro de 2026, para que o imperialismo ianque continue com suas agressões ao Médio Oriente em geral e (neste momento) ao Irão em particular ilustra essa submissão. Enquanto até nações historicamente alinhadas às agressões contra o Médio Oriente, como Espanha, recusaram uma ação semelhante, o velho Estado autorizou – por meio de seu ministro reacionário Paulo Rangel (PSD) – um “uso mais intensivo” recente da Lajes pelo Grande Satã, os EUA, alegando “apenas” cumprir um tratado bilateral de 1951. Enquanto isso, as massas exploradas dos Açores enfrentam consequências reais: o monopólio de imprensa “Jornal de Notícias” denuncia contaminação por hidrocarbonetos e metais tóxicos nos arredores da base, que já provocou solos e aquíferos poluídos. A expansão da presença militar estrangeira nas ilhas (a maior infraestrutura de combustível fora dos EUA) teve custos ambientais e sociais denunciados continuamente pelas massas oprimidas daquela região.
Em paralelo, Portugal acompanha as intervenções das superpotências e potências imperialistas em África, Médio Oriente e Europa. As Forças Armadas reacionárias portuguesas têm sido enviadas recorrentemente para missões da ONU, UE e NATO na República Centro-Africana (MINUSCA) e em treino a Moçambique, no flanco leste europeu (Roménia, Lituânia) reforçando as forças da NATO frente à guerra na Ucrânia, além de contributos no Golfo da Guiné e no Índico, além de antigas missões em Kosovo (1999 à 2017) ou Afeganistão (2002 à 2010), sempre vistas como imposições estrangeiras que aprofundam o caráter do exército reacionário português de soldado do imperialismo em submissão aos imperialistas de Washington, Bruxelas, Londres e outros. Não podem ser esquecidas também as chamadas “missões humanitárias” do velho Estado na Guiné-Bissau (1998) e no Timor Leste (1999) que tiveram como foco principal assegurar os interesses dos imperialistas respetivamente franceses e ianques naquelas nações. Nota-se aqui o papel histórico de Portugal: garantir que as vontades daqueles que sustentam as classes parasitárias, a burguesia burocrático-compradora e o latifúndio, sejam atendidas dentro e fora do território lusitano.
Milhões para a NATO, migalhas para o povo
A submissão fica ainda mais clara nos números dos orçamentos. Há anos que Portugal promete cumprir a meta NATO de 2% do PIB em Defesa – meta essa que, em 2026, foi agora ampliada para até 5%. Para atingi-la, o governo de turno aplicou um reforço extra de mais de 1 mil milhão de euros em defesa em 2025, e ao mesmo tempo fixou objetivos para subir gradualmente até 5% do PIB nos próximos anos. Em 2024 Portugal gastou cerca de 4,48 mil milhões de euros com defesa (1,58% do PIB). Em 2025 o orçamento chegou a quase 6 mil milhões, e em 2026 é esperado que este número mantenha ou aumente, mas de forma alguma diminua. Em termos simples, o país investe agora muito mais em armas do que no passado recente, e o ultra-reacionário primeiro-ministro Luis Montenegro (PSD) sustenta este facto com orgulho: “somos parceiros e aliados dos Estados Unidos, e não há dúvida quanto a isso”, e reafirma que Portugal manterá firme o compromisso transatlântico e “nunca deixará” de defender a submissão aos imperialistas ianques e a coalizão imperialista da NATO.
Esses acréscimos vão direto às contas militares: compra de caças, navios, defesa cibernética, infraestrutura militar (como foi anunciada para as Lajes) – itens que geram lucros para a indústria de armamento. Enquanto militarizam a sociedade portuguesa, satisfazendo seus interesses de apoiar a repressão de massas em luta dentro e fora do país, menos dinheiro sobra para escolas, hospitais e necessidades sociais. Enquanto o velho Estado ocupa-se em defender com unhas e dentes os interesses do imperialismo, ao longo de 2025 mais de 1.5 milhões de utentes estiveram sem médico de família e mais de 90% das massas queixam-se de uma deterioração alarmante no SNS (dados da healthnews.pt). Na educação, 78% das escolas – segundo o monopólio mediático The Portugal News – enfrentavam a falta de docentes, e os poucos docentes presentes enfrentam jornadas exaustivas e horários múltiplos.

As massas populares erguem a bandeira da luta anti-imperialista
O velho Estado português apregoa uma aliança inquestionável com os imperialistas pois sabe que não durará um dia sequer sem o apoio destes. As massas no país, entretanto, demonstram cada vez mais sinais de esgotamento. Enquanto as classes dominantes celebram acordos militares, de norte a sul do país cresce uma contracorrente de mobilizações populares. Revolucionários, democratas, associações e sindicatos organizam comícios e marchas contra a participação na NATO e as agressões imperialistas, alertando que o dinheiro poderia financiar o SNS e as escolas. Muitos citam que Portugal, historicamente, nunca saiu ileso dos conflitos alheios, e cada nova decisão dos lacaios do imperialismo gera repúdio no seio do povo.
Em solidariedade internacionalista, as massas populares tem feito ouvir a sua voz. Em Lisboa e Porto, as duas maiores cidades de Portugal, multidões protestam continuamente contra a o genocídio em Gaza, levado a cabo pelo “Estado” sionista de Israel; para exemplificar: em outubro de 2025, mais de mil manifestantes protestaram diante da embaixada de Israel em Lisboa com as consignas “Fim do genocídio!” e “Libertem a flotilha!”. Ações revolucionárias por todo o país frequentemente saúdam a Resistência Nacional Palestiniana e levam adiante as palavras de ordem “Palestina livre do rio ao mar!” e “Fim ao Estado nazisionista de Israel!”. No decurso da ofensiva imperialista contra a Venezuela e a América Latina, as massas também mobilizaram-se em protestos, bem como na defesa do povo ucraniano usado como bucha de canhão pelo imperialismo ianque e russo. Com os recentes ataques ao Irão, os democratas e revolucionários de Portugal voltam a se levantar para denunciar a escória imperialista e a conivência do velho Estado português, unindo os gritos de ódio das massas a clamores por uma nova e superior forma de organização para combater duramente os imperialistas e seus lacaios dentro e fora de Portugal.
Enquanto todo esse mar de contradições que é o imperialismo e o regime lacaio se Portugal se agudiza, o oportunismo dessa falsa “esquerda” eleitoreira, a pregar manter seus carguinhos rendosos no velho Estado, continuam se limitando a transformar as justas lutas do povo português em curral eleitoral e dividir as massas, transformando-as em “suas” como se fossem seus donos, fazendo de tudo por limitá-las a um pacifismo barato e caminhadas a seu gosto. Um exemplo disso foi o ato no Porto contra a invasão ianque à Venezuela, onde o “PCP” montou toda uma contra-manifestação para tamponar a que foi originalmente convocada, bem como as ocorrências de intimidações a revolucionários e democratas em outras. Hilário! O desespero é tamanho por saírem bem na foto, mas mesmo no seu propósito mesquinho, eleitoreiro, não podem fazer nada que não seja o desgaste de sua própria imagem. As próprias rodadas eleitorais mostram isso: não só estão em profunda crise em suas fileiras, como recorrem a toda sorte de infortúnios contra servidores do povo, como bons serventes que são ao regime português e ao imperialismo.

As contradições entre a submissão do velho Estado aos interesses imperialistas e as massas que anseiam por verdadeira libertação tornam-se cada vez mais agudas. A crise geral do imperialismo aprofunda-se e, com ela, deteriora-se a qualidade de vida em Portugal, expressando-se através dos salários corroídos, serviços públicos em rutura, precariedade generalizada e avassaladora crise da habitação. Tudo isto expõe aquilo que sempre esteve inscrito na própria lógica do sistema que é incapaz de assegurar dignidade às maiorias porque assenta na exploração das massas de Portugal e na aliança com os inimigos dos povos de todo o mundo. Enquanto se multiplicam compromissos militares e se reforçam alianças estratégicas que servem interesses alheios, exige-se às massas contenção, sacrifício e resignação.
A história, entretanto, não se move pela vontade dos dominadores, mas pelos resultados da dura guerra entre classes que se torna cada vez mais acirrada e determinante. À medida que a crise se aprofunda, cresce também a atenção e a solidariedade com os povos que resistem e lutam pela sua autodeterminação no Peru, na Índia, nas Filipinas, na Turquia, no Brasil, na Palestina e em tantos outros lugares deste mundo. Essa realidade coloca Portugal perante uma encruzilhada histórica. Os povos oprimidos do território lusitano se levantarão contra seus opressores, e quando o fizerem estarão sob a mira das mesmas armas que hoje oprimem o Médio Oriente, a América Latina, a África e a Ásia. Resta então uma questão: quais os caminhos que devem ser tomados para que as massas possam aniquilar seus opressores e fazer florescer a aurora de um Novo Mundo?
