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O “Dia Internacional da Mulher Proletária”, celebrado no dia 8 de março, tem tido uma importância especial na luta revolucionária de todos os povos, ao longo dos anos. Este tributo à luta das mulheres das classes exploradas e oprimidas em todos os países foi proposto por Clara Zetkin, dirigente comunista alemã, na IIª Conferência de Mulheres Socialistas, realizada na Dinamarca, no ano de 1910. A escolha desta data deu-se porque, exatamente neste dia, ocorreu em Petrogrado, então capital da Rússia czarista, uma combativa passeata “contra a fome, a guerra e o czarismo”, da qual participaram centenas de mulheres operárias, sob a direção dos bolcheviques. Era o auge da situação revolucionária na Rússia e esta manifestação abriu um dos períodos revolucionários mais importantes da história da humanidade – a vitória da “Grande Revolução Socialista de Outubro”.

Esta é a verdade da data, relacionada diretamente à guerra revolucionária sob o mando do grande Lênin, que levou a classe operária a conquistar o Poder, pela primeira vez, no mundo! A outra versão, levantada há tempos pelos monopólios em geral, que aponta a morte das 129 operárias tecelãs de Nova Iorque, supostamente ocorrida no dia 8 de março, como a origem da celebração, foi montada na tentativa de apagar a história de luta do proletariado. Não é a versão verdadeira, embora os movimentos revolucionários internacionalistas nunca tenham negado o valor daquela luta das tecelãs estadunidenses, cruelmente assassinadas durante a sua greve justa, trancadas pelo patrão dentro do prédio em chamas. Este fato faz parte da luta do movimento operário internacional, e elas são também heroínas da luta de todo o proletariado pela sua luta. Mas para além da busca de mascaramento da história, o heroísmo delas não deu-se no dia 8 de março, e sim no dia 25 de março de 1911.
Desde então, em homenagem à justa rebelião das operárias russas, e em defesa da libertação de toda a classe, o dia internacional das mulheres proletárias passou a ser celebrado anualmente com forte conteúdo de classe. Inicialmente, pelos movimentos revolucionários de mulheres em todo o mundo, impulsionando assim a organização e a rebelião das mulheres exploradas e oprimidas em todo o mundo. A data segue tendo grande significado para o movimento feminino revolucionário, na atualidade, pois destaca o grande exemplo de quem ousou lutar, e ousou vencer.
No entanto, outros diferentes grupos de mulheres, sob a ideologia da burguesia, através de uma linha reformista, têm-se organizado e mostrado, publicamente, em manifestações e lutas estreitas, com as quais buscam a mera igualdade jurídica, atacando apenas o patriarcado. E também, na tentativa de suprimir o caráter classista da data já há muito consolidado, as feministas burguesas ao seguir a deliberação da desmoralizada ONU, transformaram o dia 8 de março em “Dia Internacional das Mulheres”, ou seja, de “todas as mulheres”: tanto das exploradoras como das exploradas, tanto das opressoras como das oprimidas.
É muito importante ressaltar que não podemos falar em nome de “todas as mulheres” porque não existe “a mulher em geral”, visto que estamos todas divididas em classes. Um grande revolucionário latino-americano, o peruano José Carlos Mariátegui disse, com toda a clareza, que “as mulheres, assim como os homens, são reacionárias, centristas ou revolucionárias. Não podem, portanto, combater juntas a mesma batalha. No atual panorama humano, a classe diferencia os indivíduos mais que o sexo”.
Em todos os países, inclusive em Portugal, é possível entender o que disse Mariátegui observando as mulheres das classes dominantes, que são as únicas mulheres que podem atingir a mesma condição dos homens, de sua classe, nos marcos do capitalismo. Enquanto que para um gigantesco contingente de mulheres do povo – mulheres operárias, camponesas, trabalhadoras em serviços, empregadas de limpeza, vendedoras ambulantes, empregadas domésticas entre outras – as desigualdades e preconceitos crescem mais a cada dia. Estas continuam sem ter seus direitos respeitados, são pobres ou vivem à beira da miséria, e travam uma dura batalha diária pela sua sobrevivência e a de seus filhos. A diferença concreta, real, é resultado direto da crescente degeneração do imperialismo, que nos países oprimidos é ainda pior para as mulheres do povo, e principalmente para as mulheres pretas.
Libertação de todas as mulheres?
Novas marchas de “todas as mulheres” sairão no próximo dia 8 de março, no nosso país, sob a bandeira de luta pela “libertação das mulheres”. Esta tese de “libertação das mulheres” desmascara-se cada vez mais como ideologia burguesa, com a sua proposição de união de “todas as mulheres”, independentemente da sua classe social. E assim divide o movimento popular e afasta as mulheres oprimidas da luta pelos seus direitos. Os escravos assalariados atuais, devido às condições de exploração capitalista, permanecem tão esmagados pela necessidade e pela miséria que não se importam para tais lutas políticas, principalmente ao lado das mulheres que as exploram e oprimem.
É importante pois, particularmente neste dia, combater as ideologias não proletárias, como o feminismo burguês, o pós-modernismo, o individualismo, e outras ideias que expressam a atual ofensiva contrarrevolucionária. Este conjunto de ideias reacionárias, seguem ocultas no radicalismo contra o patriarcado, através da luta pela “reforma” do capitalismo, alimentando uma luta pela aprovação de igualdade jurídica entre mulheres e homens, como se fosse possível derrotar o patriarcado por decreto.
Recordemos do passado recente. Após o 25 de abril de 1974, com o desenvolvimento do PREC, podemos dizer que as mulheres conseguiram avançar um pouco em seus direitos, em relação às condições retrógradas e ultrajantes que eram submetidas durante o longo regime fascista de Salazar. Sob os 40 anos de fascismo, a opressão da mulher, no nosso país, era realmente extrema e, assemelhava-se, em muitos aspetos, com a situação das mulheres no período feudal europeu. Não podemos negar que, hoje, as mulheres superaram absurdos como o direito de viajar, ou de trabalhar, que antes só era permitido com a autorização do marido. Mas, no caso do trabalho, elas podem trabalhar, mas ganhando bem menos do que ganham os homens; uma desigualdade salarial que persiste.
Com o fim do PREC, as esperanças perderam força e as condições de vida das mulheres foram retrocedendo com o regime implantado depois do golpe de direita, a partir de novembro de 1975. Democracia para uma insignificante minoria, democracia para os ricos, tal é o democratismo da sociedade capitalista. Agora, além disso, os sucessivos governos seguem a receita prescrita pelos países imperialistas da Europa. Pouco ou nada têm feito a favor das mulheres; não vemos esforço real para garantir os direitos do povo e dos migrantes, menos ainda das mulheres trabalhadoras migrantes.


Exemplo vivo e recente desta “democracia” portuguesa é a nova proposta de reforma laboral apresentada pelo governo atual, que visa alterar o Código de Trabalho de Portugal, com foco principal na provável “estabilidade do mercado de trabalho”. As medidas são negativas, a sobrecarga burocrática será mais desgastante, etc, e o novo pacote pretende também atacar o sagrado direito de greve dos operários e trabalhadores. Tudo isso para que o governo português se alinhe com as metas determinadas pelos imperialistas europeus; o que faz do nosso país um cúmplice direto de políticas cada dia mais desiguais e injustas para os trabalhadores e trabalhadoras. Concordamos pois com as professoras e educadoras em Portugal, que têm denunciado amplamente que a aprovação do novo pacote laboral (chamado também de ”Trabalho XXI”), com a revisão simultânea do Estatuto da Carreira Docente, representará um imenso retrocesso aos seus direitos; e de outras trabalhadoras.
Estas restrições, exclusões, obstáculos para os pobres parecem muito pequenos especialmente aos olhos dos que nunca passaram eles próprios por estas necessidades, nem nunca conheceram, de perto, a vida diária das classes oprimidas, senão através das publicidades feitas pela imprensa burguesa e das palavras dos políticos burgueses. Mas estas restrições impedem os pobres da participação ativa na política; eliminam-os da política.
Somente quando estivermos juntas com as mulheres da nossa classe, essas manifestações terão sentido concreto e valor prático. Fora disso, tais atos conciliatórios não contribuirão para as lutas necessárias à promoção de grandes mudanças na nossa sociedade. As nossas manifestações devem ser sempre classistas e combativas, não passeios criativos e festivos, que em nada incomodarão os políticos oportunistas, os governantes da direita, os burgueses e latifundiários, muito menos os imperialistas.
Não pode existir libertação das mulheres sem libertação de toda a classe! E a libertação da classe será conquistada por todos nós, homens e mulheres, com o acirramento da luta de classes, e a vitória da revolução proletária – que hoje, na época do imperialismo, da decomposição e agonia do capital, compõe-se de revolução socialista nos países imperialistas e de revolução de nova democracia ininterrupta ao socialismo nos países oprimidos.
Emancipação das mulheres
Nunca se defendeu tanto o feminismo burguês e a luta contra o racismo, sem falar de classes; nunca se defendeu tanto a proteção ambiental, sem denunciar o modelo económico; nunca se pretendeu tanto fazer a luta das massas, sem falar de revolução. Na verdade, nunca se negou tanto o marxismo e o comunismo – a verdadeira sociedade sem classes. É urgente, pois, neste 8 de março, particularmente no nosso país, evidenciar, no essencial, o que diferencia todas as correntes feministas burguesas atuais, das organizações femininas ainda em construção sob a conceção proletária de luta em defesa da emancipação das mulheres.
Estamos a falar do ponto de vista de classe, portanto é importante ter claro qual é a diferença entre a luta pela “libertação da mulher” proposta pelas feministas reformistas, e a luta pela emancipação das mulheres do povo, proposta pelos movimentos revolucionários. A mulher trabalhadora, a camponesa, e outras, podem emancipar-se antes de libertarem-se totalmente. As mulheres oprimidas podem equiparar-se à condição dos homens da sua classe, e devem lutar duramente por isso, pois seguem duplamente explorada e duplamente oprimida.
Mas, a emancipação da mulher não significa apenas a incorporação de um grande número de mulheres à produção. A emancipação da mulher é liberar-se da tutela do homem, estar em pé de igualdade com os homens, da sua classe. Aqui em Portugal, as mulheres não tiveram e não terão isso, principalmente com o novo pacote laboral, como bem os sindicatos e trabalhadores têm denunciado. É necessário que todas as mulheres sejam incorporadas em condições de igualdade com o homem, e para isso é fundamental atacar a raiz dessa desigualdade; é preciso que o trabalho doméstico seja reduzido ao mínimo possível, capaz de ser realizado por homens e mulheres, ao ponto de não representar uma sobrecarga para nenhum dos dois.
Sabemos que “com papas e bolos se enganam a todos” e não podemos deixar que “mais sejam as vozes do que as nozes”! Os imperialistas e seus serviçais, os governos reacionários, não incorporarão mais mulheres ao trabalho visto que para isso teriam que transformar o trabalho doméstico em uma indústria social, com novas creches, lavandarias coletivas e restaurantes coletivos. Alguém acredita que em Portugal vai ocorrer algo assim, em breve? Além disso, a unidade económica representada pela família é vital para todos os exploradores; não podem dispor dela, pois é a condição da qual não abrem mão, já que esta potencializa a extração da mais-valia e amplia, em níveis altamente rentáveis, a exploração da força de trabalho das classes trabalhadoras.
Embora o capitalismo, no decorrer do seu desenvolvimento até a fase monopolista, tenha integrado crescentemente mulheres na produção, o fez sempre com todos os prejuízos para as mulheres. Diante de suas crises económicas cíclicas recorrentes, as mulheres têm sido sempre as mais atingidas: salários mais miseráveis que os salários dos homens, condições desumanas de trabalho com a manutenção da dupla jornada, e dificuldades grandes para ocupar as funções mais bem remuneradas, etc. O capitalismo integrou-as na produção com o objetivo de aumentar a exploração da classe; mas diante da sua crise atual, de decomposição sem precedentes, nesta fase do capital monopolista, as mulheres sofrerão muito mais, seja com menos ofertas de empregos ou com empregos que significam uma condição maior de escravidão assalariada.
Avançar a consciência de classe
Assim sendo, a emancipação da mulher é um processo complexo de desenvolvimento da luta de classes do proletariado e demais massas populares, na qual se requer a elevação da prática social das mulheres nas suas três manifestações: a luta pela produção, a luta de classes e a experimentação científica. Antes do triunfo da revolução socialista (e da revolução de nova democracia nos países semicoloniais, como parte deste processo) e em prol desta, as mulheres trabalhadoras só poderão avançar nas suas demandas específicas se toda a classe avançar o seu nível de consciência de classe para si. A emancipação da mulher é, e deve ser sempre, a nossa bandeira! Não o ideário metafísico do feminismo de “libertação da mulher”.
E para promover maior participação das mulheres é necessário pôr de pé o heroico combatente – o partido comunista marxista-leninista-maoista (não revisionista), desde a luta pela sua reconstituição ou constituição, para que ademais de mobilizar, politizar e organizar ao máximo a classe como um todo, crie e desenvolva métodos e organizações específicas das trabalhadoras. O que é essencialmente revolucionário, e que precisa ser liberado, hoje mais do que nunca, é a energia e a fúria revolucionária das mulheres exploradas e oprimidas milenarmente, como poderosa força para a revolução proletária.
Nenhuma grande mudança ocorrerá como passe de mágica, ou com pouca luta, ou em poucos anos. Mas, movidas pelo ânimo proletário e a confiança de classe podemos ver luz a nossa frente e lutar duramente pela construção da “mulher nova”, e do “homem novo”, que só poderá nascer a partir da construção de uma “sociedade nova”. Esta sociedade nova somente será conquistada através da revolução proletária, com extinção da propriedade privada e com o fim da exploração do homem pelo homem. A partir daí, tantas desigualdades entre os homens e as mulheres irão sendo solucionadas, parte por parte.


Lutas anti-imperialistas
Neste 8 de março de 2026, no cenário global, assistimos a uma elevação da luta anti-imperialista, em diferentes níveis, em todo o mundo! De uma parte, vemos a resistência feroz das guerras populares na Índia, Turquia, Filipinas e Peru, que seguem o seu caminho apesar dos bárbaros ataques e perdas sofridas; enquanto outros processos já preparam o seu início. De outra parte, vemos a continuidade das guerras de libertação nacional, cujo exemplo maior é o da resiliência e da brava decisão de defesa da sua terra, de homens e mulheres palestinianas. As crescentes expressões de ódio anti-imperialista vem unindo essas duas correntes políticas e isso mostra a abertura de um novo período de revoluções no mundo. E em todas estas lutas atuais vemos a participação direta e decisiva das mulheres, inclusive nos duros combates militares. As mulheres revolucionárias sabem e mostram-nos que não podemos esperar nada de positivo do imperialismo, nem de todos os reacionários no poder, nos nossos respetivos países.
Assim foi na Rússia e também na China. A Revolução Chinesa, particularmente, não teria vencido se tive alcançado apenas os homens, ou seja, a metade da população, abandonando a outra metade, as mulheres. Como poderia ter sido na China, a máxima exploração é o destino das mulheres, ainda hoje, em todas os países. Mas, as mulheres chinesas integraram-se na luta revolucionária naquele momento, não somente para se libertarem, e alcançarem a igualdade com os homens chineses, mas para fazer a revolução. Assim converterem-se, de fato, na “metade do céu”, alcançando direitos muito importantes na nova sociedade socialista!


Devemos, portanto, sempre trazer à nossa memória o exemplo das mulheres que deram suas vidas, consciente e cabalmente, à luta por uma nova sociedade, em cada um de seus países. Em Portugal, devemos recordar a trajetória das corajosas e valentes mulheres que participaram da intensa luta anticolonial, que antecedeu o 25 de abril de 1974; daquelas que lutaram para destruir o regime fascista e de várias outras que continuaram firmes na luta durante o PREC. Os seus exemplos devem ser mantidos vivos entre nós, mulheres do presente, que vivemos em Portugal, como razão para continuar a nossa luta. A força dos levantes populares que se seguiram ao 25 de abril trouxe consigo a revolta represada durante décadas pelas massas, inclusive das massas de mulheres, perante o velho Estado fascista português. A rebelião foi justa; a rebelião é ainda justa!
Pouco se sabe, mas um grande foco dessa luta ocorreu no campo, onde as massas campesinas elevaram a sua capacidade de combate, apesar da brutal repressão fascista contra todos os camponeses e as suas famílias. Esta luta campesina foi dirigida tanto por homens como por mulheres do povo, que brigaram contra o latifúndio pela repartilha da terra entre os camponeses, principalmente pobres. Um notório exemplo da mulher daquele tempo é o caso da trabalhadora rural, Catarina Eufémia, então militante do P.C.P. (não revisionista), que foi liquidada com 3 tiros pela sanguinária Guarda Nacional Republicana/GNR em 1954, em Beja, durante um protesto massivo por melhores salários.


Também nas cidades, muitas mulheres do povo engajaram-se na luta contra o fascismo e pelo desenvolvimento da revolução proletária no país, antes da derrocada do PREC. Entre elas está o exemplo da professora primária Maria dos Santos Machado, uma das primeiras apoiadoras do “Socorro Vermelho Internacional” – organismo da Internacional Comunista que dava apoio social aos povos em luta revolucionária – que devido ao seu ardor revolucionário e o seu compromisso com o povo pobre e explorado no país, filiou-se ao P.C.P., em 1930. Maria Machado foi responsável pela fundação da “Associação Feminina Portuguesa pela Paz”, em 1936, e escreveu em jornais comunistas, sob o nome de Rubina, convocando as mulheres a se unirem no combate ao fascismo e na luta pelo Poder, junto de seus irmãos de classe.
As mulheres são metade de todos os seres humanos; e hoje, talvez sejam mais da metade. E ainda são as mães da outra metade. É urgente fazer germinar nas mulheres do povo o desejo forte de mudança de modo a mudarem a si mesmas, de mudarem sua condição social e de mudar o mundo em que vivemos. Como disse o Presidente Mao, “as mulheres podem e devem conquistar o céu, ao lado dos homens de sua classe!” Em frente!
