Foto: Infobae.
Partilhamos matéria publicada na imprensa popular e democrática colombiano Nueva Democracia.
O governo de Petro realizou, até à data, 16 bombardeamentos contra grupos armados, que causaram pelo menos 64 mortos e dezenas de detenções. Em novembro de 2025, o Estado bombardeou 15 crianças em Guaviare. No que vai de 2026, e especialmente depois de prometer aos Estados Unidos resultados na luta contra o «narcoterrorismo», o atual governo bombardeou o ELN no Catatumbo e as FARC no Guaviare e, mais recentemente, as FARC na semana de 8 de março em Ituango, Antioquia, deixando 7 guerrilheiros mortos.
De forma convergente e paralela, o governo dos EUA realizou, desde setembro de 2025, 45 ataques aéreos a embarcações no Pacífico e no Caribe colombiano e venezuelano, que resultaram no assassinato ilegal de 157 pessoas sob o pretexto do combate ao narcotráfico.
A isto soma-se o bombardeamento na fronteira entre a Colômbia e o Equador de um acampamento do grupo armado Comandos da Fronteira, que foi realizado abertamente com a cooperação dos Estados Unidos, e denuncia-se que pode ter-se estendido ao território colombiano, deixando um saldo de pelo menos 27 mortos, incluindo vítimas camponesas.
Para além do debate entre o governo de Noboa no Equador e o de Petro na Colômbia, em que se acusam mutuamente pelas mortes e por quem deu a ordem, ambos os governos têm vindo a aplicar a política militar dos Estados Unidos de bombardeamentos, «operações cinéticas» e luta contra o «narcoterrorismo» contra o «inimigo interno» e ao serviço dos interesses dos Estados Unidos de estabilizar a região e ampliar o controlo territorial e, especialmente, militar dos Estados Unidos na América Latina.
Em linha com esta estratégia, os Estados Unidos entregaram no mês passado 145 tanques blindados à Colômbia e, em novembro do ano passado, compraram por 16,5 mil milhões de pesos 17 caças de combate da empresa sueca Saab, que terão precisamente o objetivo de melhorar os bombardeamentos contra o «inimigo interno».
Em 1964, os Estados Unidos promoveram na Colômbia e nos países oprimidos sob a sua influência a Doutrina Militar do «inimigo interno». Esta doutrina identificou o comunismo e os movimentos de esquerda, sociais e dissidentes como ameaças à segurança. Até mesmo a Corte Interamericana de Direitos Humanos atribuiu a esta doutrina e aos manuais militares orientados por Washington a responsabilidade por graves casos de violência e repressão. A insurgência e a luta revolucionária, democrática e pelos direitos populares são desprovidas do seu caráter político, são desvirtuadas e lhes é atribuído o papel de um temível inimigo interno, que representa o terrorismo, o narcotráfico, o crime, etc. A doutrina estigmatiza os movimentos sociais e populares, denominando-os de «idiotas úteis» desse suposto inimigo interno.
Esta mesma doutrina militar continua a ser utilizada pelos Estados Unidos atualmente para aprofundar a ingerência militar, económica, política e ideológica no continente americano. É também a política continuada e aprofundada pelo atual governo da Colômbia. No meio de um discurso oficial de «paz total», os factos mostram que se está a verificar o aprofundamento da guerra contra-insurgente na Colômbia, sob a orientação e tutela dos interesses do imperialismo norte-americano.
O atual governo da Colômbia, tal como os anteriores, reforça o discurso do inimigo interno e a lógica militarista, alinhando-se com a política de militarização e ingerência que o imperialismo norte-americano promove na região. Por trás dos números oficiais esconde-se uma narrativa que esvazia o conflito de conteúdo político. Ao rotular indiscriminadamente os grupos como «criminosos» ou «terroristas», priva-se a insurgência do seu caráter político e invisibilizam-se as causas estruturais do conflito: a exploração, a injustiça e a opressão.
A Colômbia continua a ser, hoje como ontem, uma das principais peças militares do imperialismo norte-americano para o controlo do seu «quintal». O Plano Colômbia e os seus sucessores institucionalizaram a ingerência norte-americana em assuntos militares, consolidando um modelo de guerra interna financiado, treinado e orientado a partir do exterior.
Esta lógica bélica mantém-se em vigor e manifesta-se nos bombardeamentos conjuntos do Estado colombiano, do Estado equatoriano e, diretamente, do imperialismo norte-americano contra os povos das Caraíbas, dos Andes e da Amazónia. Sob o pretexto da «guerra contra o terrorismo e o narcotráfico», estas operações encobrem execuções sumárias ilegais, desvirtuam o caráter político do conflito armado e da luta guerrilheira que persiste na Colômbia. Além disso, esbatem repetidamente as fronteiras com os movimentos de massas, as organizações políticas, as comunidades rurais e os pescadores, populações sobre as quais se permite manter uma política de terror e legitimar os bombardeamentos sobre os seus territórios.
A crescente ingerência militar dos Estados Unidos na Colômbia e na América Latina — concretizada na compra de armamento, nas operações conjuntas e na agressão direta no mar das Caraíbas e no Atlântico — consolida o país como um súbdito fiel do Pentágono na região. A soberania é assim entregue pela aceitação tácita de doutrinas e ações de guerra que respondem aos interesses imperialistas de controlo territorial, exploração e opressão, tudo isto encoberto sob o discurso falhado da luta antinarcóticos.
No passado dia 10 de março, Petro criticou Trump por não o ter convidado para a reunião do «Escudo das Américas», realizada com os governos mais cooperantes — ou seja, mais subservientes — da região, em nome da «segurança» do continente americano. Com isso, Petro estaria a denunciar que a Colômbia tinha, de facto, o nível de cooperação necessário para cumprir as imposições norte-americanas na região, e reivindicou o seu lugar para que a Colômbia continue a ser o laboratório da contra-insurgência norte-americana na América Latina. E enquanto isto persistir, a paz continuará a ser uma quimera e os bombardeamentos, a única resposta do Estado aos problemas estruturais da terra e da desigualdade. Perante isto, surge apenas a necessidade de uma mobilização popular e de um movimento anti-imperialista coerente que rejeite a ingerência norte-americana, que denuncie a política de contra-insurgência e os bombardeamentos contra o inimigo interno como uma continuação dessa ingerência, e que enfrente esta guerra que se disfarça de luta contra o narcotráfico, mas que, na realidade, perpetua a dominação e o terror sobre os povos.
