Membros de grupo rebelde étnico Ta'ang, Exército de Liberação Nacional. Foto: Getty Images.
Partilhamos matéria publicada na imprensa popular e democrática brasileira A Nova Democracia, com alterações linguísticas para facilitar a leitura.
No dia 25 de Janeiro, foram encerradas as eleições parlamentares em Mianmar, em pleno contexto de guerra civil contra o regime fascista instaurado com o golpe militar de 2021. As hostilidades atingiram um novo patamar de violência com o lançamento de uma ofensiva coordenada pelas Forças de Defesa Popular (PDF), organização militar do Governo de Unidade Nacional formado em 2021 contra o golpe, e por grupos étnicos como o Exército de Libertação Nacional Karen (KNLA) e o Exército Arracão (AA).
Organizações internacionais denunciam que a junta intensificou ataques deliberados contra civis e infra-estruturas essenciais, como escolas e hospitais, cometendo crimes contra a humanidade em larga escala. Desde o golpe de 2021, o regime proibiu dezenas de organizações democráticas e mantém mais de 30 mil presos políticos. Desde então, o exército reaccionário processou mais de 400 pessoas ao abrigo da lei de “proteção eleitoral”.
A resposta do regime à resistência tem sido caracterizada por ataques diários de artilharia e incursões terrestres que já provocaram o deslocamento forçado de mais de 10 mil pessoas apenas nos arredores de Penwegon. Camponeses de mais de 20 aldeias foram obrigados a fugir da repressão militar.
Em meio à repressão, o “novo” parlamento tem tomada de posse prevista para Março. O processo eleitoral é acusado de manipulação pelo Partido da União, Solidariedade e Desenvolvimento (PUSD), apoiado pelo regime fascista do general Min Aung Hlaing, comandante das Forças Armadas de Mianmar. A junta organizou as fases finais da sua eleição fraudulenta em municípios como Kyauktaga e Phyu, onde civis foram obrigados a votar sob ameaça. Antes das eleições, seis membros do regime e mais 30 militares filiaram-se no PUSD.
Ofensiva em Bago: o colapso das rotas logísticas do regime
A resistência em Bago desferiu golpes contundentes contra a espinha dorsal logística do regime militar. Desde o dia 7 de Janeiro, unidades das Forças de Defesa Popular (PDF) de diversas áreas lançaram ataques intensos contra bases militares nos municípios de Nattalin, Zigon e Minhla, no oeste da região. O resultado inicial foi a aniquilação de cerca de 40 soldados do exército reaccionário.
Dois dias após o primeiro assalto, a resistência intensificou as operações com ataques simultâneos contra 14 posições da junta militar nos municípios de Kyauktaga e Oktwin, estrategicamente localizados ao longo da antiga estrada Yangon-Mandalay. Numa demonstração de força e capacidade táctica, as forças populares tomaram brevemente a cidade de Taw Kywe Inn, matando outros 50 soldados e apreendendo um importante arsenal de armas e munições, material que agora serve a resistência.
Em 12 de Janeiro, o centro de gravidade dos confrontos convergiu para Penwegon, ponto de valor estratégico incalculável onde a via se transforma na Rodovia Asiática 1 e se liga à rota que conduz a Kyaukkyi. Relatos confirmam que o Exército de Libertação Nacional Karen (KNLA) actua em coordenação directa com outros grupos da resistência, impondo baixas constantes às forças de repressão.
Regime reaccionário comete vis crimes contra o povo
No início de 2024, dois jovens combatentes da Força de Defesa de Yaw (YDF), identificados como Phoe Tay e Thar Htaung, foram capturados, torturados e queimados vivos em público na aldeia de Myauk Khin Yan. Amarrados com correntes e enforcados numa árvore, os jovens foram incendiados diante dos moradores, obrigados a testemunhar a execução. O crime foi filmado por carrascos da organização paramilitar Pyu Saw Htee, que celebravam o acto.
Mianmar vive um estado permanente de guerra civil desde a colonização britânica. A resistência não é apenas uma reacção ao golpe, mas uma luta de libertação nacional em grande escala. Em pelo menos dez estados federais, grupos como o Exército Nacional Chin, o Exército Karenni e o Exército do Estado Shan operam contra o regime.
No oeste, o Exército Arakan impõe derrotas significativas ao regime, controlando 14 dos 17 municípios em Arracão. Em Sittwe e Kyaukphyu, os fascistas utilizam civis como escudos humanos em aldeias destruídas.
A contenda inter-imperialista em Mianmar
A revista maoista Internacional Comunista publicou, em 2021, uma análise sobre o golpe de Estado levado a cabo pelo exército reaccionário em Mianmar. Segundo a publicação, embora a China seja a principal potência imperialista a exercer dominação sobre o país, um dos factores que contribuíram para o golpe foi a perda de apoio do imperialismo ianque à conselheira de Estado Aung San Suu Kyi. A conclusão dos maoistas é que em Mianmar existe uma situação de contradições entre diferentes fracções das classes dominantes, além de contradições inter-imperialistas, sob hegemonia do imperialismo norte-americano, que influenciam o conflito militar.
Após a execução do golpe militar, o imperialismo ianque, nas figuras de Joe Biden e Antony Blinken, utilizou uma retórica de condenação formal, exigindo a libertação de presos. Contudo, essa duplicidade serviu apenas para pressionar a junta militar e tentar recuperar terreno perdido para a China. Enquanto o imperialismo britânico, em conluio com os EUA, declarou apoio à Liga Nacional para a Democracia (LND), Estados imperialistas de segunda ordem, como o Japão, adoptaram posturas cautelosas para não empurrar Mianmar definitivamente para a órbita de Pequim, mantendo os seus pacotes de “ajuda económica”.
A recente felicitação da China à junta militar de Mianmar pelas eleições de 2026 sela o pacto entre Pequim e o regime fascista de Min Aung Hlaing. O porta-voz chinês, Guo Jiakun, declarou prontidão para “aprofundar a cooperação estratégica abrangente”.
A China investiu milhares de milhões em Mianmar, transformando o país num corredor vital para o Oceano Índico. O objectivo é contornar o Estreito de Málaca, zona sob influência do imperialismo ianque. Projectos como oleodutos, gasodutos e o porto de águas profundas de Kyaukphyu são prioridades de Pequim.
Temendo um colapso do regime, a China intensificou o fornecimento de armamento. Entre 2021 e 2023, fornecedores chineses venderam cerca de 267 milhões de dólares em armamento à junta. A China transferiu aviões de treino FTC-2000G, adequados para ataques contra alvos civis e posições da resistência desprovidas de defesa antiaérea. Contudo, a maior mudança no campo de batalha ocorreu com os VANT (Veículos Aéreos Não Tripulados). A junta utiliza drones CH-3 e CH-4 (armados com mísseis AR-1) em ofensivas contra grupos étnicos. Recentemente, iniciou a produção da variante local Yellow Cat A-2 com assistência técnica chinesa.
A influência de Pequim estende-se também à mesa de negociações. A China forçou cessar-fogos parciais, como o acordo com o Exército da Aliança Democrática Nacional de Mianmar (MNDAA) em Janeiro de 2025, chegando a deter líderes da resistência para garantir estabilidade na sua fronteira. Além disso, a junta aprovou a actuação de Empresas Militares Privadas (EMP) chinesas para proteger a Zona Económica Especial de Kyaukphyu. Estas forças, ligadas ao Estado social-imperialista chinês, libertam tropas da junta para combater a resistência noutras frentes.
