Foto: Reprodução/Servir ao Povo
Partilhamos na íntegra comunicado levado a público no portal da Liga Anti-Imperialista (LAI) sobre genocídio que está a ser perpetrado no Sudão, nomeadamente na região do Darfur, por diversas facções da grande burguesia e do latifúndio, respondendo aos anseios imperialistas de divisão e pilhagem do país.
A LAI é uma organização anti-imperialista internacional que está a mobilizar, politizar e organizar massas populares em diversos países dos vários continentes, para uma luta consequente contra o imperialismo. O comunicado foi publicado originalmente a 11 de Novembro, e sua tradução não-oficial foi publicada pelo portal português Servir ao Povo.

A continuidade da exploração e a aniquilação silenciosa de um povo no Sudão
A história moderna de África não é apenas uma história de pobreza ou guerra. É a história de um sistema de pilhagem que dura há séculos. Desde o comércio de escravos até às redes financeiras globais de hoje, a cadeia nunca foi quebrada. As ferramentas mudaram, mas o objetivo permanece o mesmo: subjugar o povo, a terra e a riqueza de África aos interesses estrangeiros.
Dos navios negreiros ao domínio colonial, da chamada missão civilizadora à ideologia do mercado livre, todas as etapas levaram ao mesmo resultado. A África foi empobrecida pelas suas próprias riquezas. As fronteiras traçadas na Conferência de Berlim dividiram não só o território, mas também o destino dos seus povos. No século XX, surgiram movimentos de independência, mas as correntes económicas nunca foram quebradas. O colonialismo direto deu lugar a novas formas de dependência baseadas em dívidas, investimentos e negócios de armas.
Hoje, todos os conflitos no continente refletem essa mesma continuidade histórica. O imperialismo não avança apenas através de tanques ou exércitos. Ele também atua através do comércio, da dívida, da mídia e das guerras civis. O Sudão é um dos elos mais recentes dessa cadeia. Da Argélia ao Congo e de Ruanda à Líbia, a África ainda carrega as cicatrizes da mesma violência estrutural. São guerras travadas por recursos, recursos que continuam alimentando novas guerras.
Para compreender a guerra no Sudão, é preciso olhar para trás, para cinco séculos de pilhagem, resistência e renascimento. Cada aldeia incendiada e cada criança faminta carregam o eco dos antigos navios negreiros e campos de mineração. É a mesma história repetida, o roubo da riqueza de um povo e a sua vontade inabalável de resistir.
A guerra no Sudão tornou-se um dos mais graves desastres humanitários do nosso tempo. Em 2018, o povo revoltou-se contra a corrupção, o colapso económico e o regime autoritário. Por um momento, a esperança pareceu possível. Essa esperança foi destruída pelo golpe militar de 2021. Três anos depois, o país estava dividido entre o exército nacional e as Forças de Apoio Rápido, um poderoso grupo paramilitar. À primeira vista, parece uma luta pelo poder, mas o Sudão tornou-se um campo de batalha para interesses regionais e globais.
Os massacres em El-Fasher e em todo o Darfur revelam a dimensão do horror. Relatórios internacionais descrevem milhares de civis mortos em poucos dias. Centenas foram assassinados dentro de uma maternidade. As Nações Unidas e as agências humanitárias contam a mesma história: milhões de deslocados, hospitais destruídos, ajuda humanitária bloqueada. A fome e as doenças tornaram-se armas de guerra.
Esta não é apenas uma guerra política, mas também económica. Ouro, petróleo e goma arábica são os motores ocultos por trás dela. O Sudão produz cerca de setenta por cento da goma arábica mundial, utilizada em alimentos, cosméticos e medicamentos. Tanto o exército como a RSF controlam a produção e o transporte nos territórios que controlam. As mercadorias são contrabandeadas através do Chade, Egito e Sudão do Sul para os mercados globais. A guerra financia-se a si própria e alimenta-se da morte.
Este sistema é uma versão moderna do colonialismo clássico. A RSF é apoiada pelos Emirados Árabes Unidos, pelas forças de Haftar na Líbia e por Israel, enquanto o Egito, a Rússia e a China apoiam o exército. Empresas internacionais aderiram a esta economia de guerra para manter ou expandir a sua quota no comércio de goma arábica.
O silêncio em torno do Sudão não é acidental. Os Estados, as empresas e os intermediários que lucram com o conflito não têm interesse em chamar a atenção para ele. A diplomacia, o comércio e os meios de comunicação operam à sombra dos interesses económicos. O silêncio tornou-se uma política deliberada que mantém vivo o colonialismo moderno. As classes dominantes fecham os olhos para proteger o comércio e as alianças, e o povo paga o preço.
Mulheres e crianças são as principais vítimas desta guerra. Violação, casamentos forçados, incêndios em aldeias e execuções em massa são práticas generalizadas. O frágil sistema de saúde entrou em colapso. A cólera e outras doenças espalham-se rapidamente, enquanto os comboios de ajuda humanitária são atacados. Relatórios da ONU alertam que o Sudão está à beira de um colapso social total.
A guerra no Sudão expõe como o imperialismo funciona hoje. Não se trata de um confronto entre dois generais, mas de um sistema no qual o capital, os Estados e as redes de armas se unem em busca de lucro e poder.
O silêncio dos governos dos diferentes países do mundo não é indiferença, é cumplicidade. Aqueles que falam alto sobre democracia ficam em silêncio quando os seus interesses estão em jogo. No entanto, a solidariedade global das massas anti-imperialistas demonstrada pela Palestina prova que o silêncio pode ser quebrado.
A tragédia do Sudão não é um acontecimento local, mas parte das contradições estruturais do próprio sistema imperialista. De um lado, há fome, destruição e morte. Do outro, uma economia global que lucra com a catástrofe. O capitalismo não pode existir sem crise. Guerra, exploração e devastação não são exceções ao sistema, são os seus alicerces. O que está a acontecer no Sudão não pode ser separado da ocupação na Palestina, da exploração mineira no Congo ou da instabilidade no Sahel. Enquanto as feridas continuam a sangrar na Ucrânia e na Palestina, a Venezuela é a próxima na fila. Todas estas são faces diferentes do mesmo mecanismo. A solução não pode vir de um único país. Deve vir de uma frente unida e internacional de solidariedade entre todos os povos oprimidos. O anti-imperialismo não é um slogan, mas uma postura histórica essencial para que a humanidade viva com dignidade.
A libertação do Sudão está ligada à libertação da Palestina e de todos os povos que resistem à exploração e à dominação.
O que acontece hoje no Sudão segue um padrão que se repete em todo o mundo: dependência económica, controlo militar, massacres e silêncio internacional. A destruição no Sudão não é uma tragédia isolada, mas um reflexo da ordem global do imperialismo. O mesmo sistema continua a operar no Congo, na Palestina, no Haiti e em todos os cantos do mundo explorado. Em todos os lugares vemos o mesmo padrão: dependência, guerra e silêncio. Quebrar essa cadeia não é mais um apelo moral, mas uma necessidade para a sobrevivência da humanidade. Há momentos na história em que as contradições atingem tal intensidade que esperar se torna outra forma de recuo. Estamos nesse momento agora. É por isso que dizer “algo precisa ser feito” ou “uma organização precisa ser construída” não é mais suficiente. Essas frases servem apenas para acalmar a consciência, reduzindo a vontade política a salas de conferência e declarações à imprensa.
A organização anti-imperialista deve ir além das palavras. Deve enfrentar não apenas os sintomas, mas toda a estrutura do sistema imperialista. As guerras, a destruição e as crises que testemunhamos hoje não são acidentes, são consequências inevitáveis dessa ordem. A Liga Anti-imperialista (LAI) está a ser construída com plena consciência dessa realidade. A sua formação continua como parte de uma responsabilidade histórica de organizar a vontade coletiva dos povos numa força consciente e coordenada contra o imperialismo.
COMITÉ COORDENADOR DA LIGA ANTI-IMPERIALISTA
Novembro de 2025
