Patilhamos aqui uma tradução não oficial da matéria presente no jornal revolucionário mexicano Periódico Mural.
À luz da crise estrutural do capitalismo burocrático e dos efeitos impostos pelas ameaças comerciais, tarifárias e agora também militares por parte do imperialismo norte-americano contra o nosso país, fenómenos como a militarização e a violência desenfreada parecem adquirir «carta de cidadania» ao serem normalizados ou invisibilizados. Isso não é nenhuma coincidência, mas sim uma política de Estado que deixa clara a reacionarização do regime, para além dos seus discursos demoliberais.
A partir deste espaço, chamamos a atenção para «os outros dados» que nem sempre são tão claros no nosso quotidiano dentro do país, mas que para todas as nações do mundo são factos incontestáveis.
Relatórios como o apresentado pela iniciativa Dados para o Mapeamento e Análise da Violência (ACLED, na sigla em inglês) destacaram que o México é o quarto país sem guerra (regular ou não convencional) mais perigoso do mundo[1], atrás apenas da Síria, Mianmar e Palestina, respectivamente. Da mesma forma, o relatório Tendências dos Gastos Militares no Mundo, publicado pelo Instituto Internacional de Estudos para a Paz de Estocolmo (SIPRI), indica que o México é o terceiro país do mundo com maiores gastos militares na compra de armas[2], depois da Roménia e de «Israel».
Estes exemplos deixam claro que o nosso país vive uma guerra civil reacionária imposta pelas classes parasitas no poder, o que não é novidade [é verdade], mas mostra uma clara tendência para a sua continuidade e aprofundamento nas mãos dos governos do Morena. Trata-se de uma guerra contra o povo que se mede com a frieza dos próprios números oficiais que, além de serem maquilhados, representam a tragédia e a dor do povo do México.

Violência transexenal.
Já o dissemos antes, a guerra contra o povo é um processo iniciado durante a chamada «guerra suja» no nosso país, que se estendeu desde a década de 60 até à segunda metade dos anos 80; foi retomada com o início da chamada «guerra contra o narcotráfico» empreendida por Felipe Calderón e foi legalizada a partir do sexénio de Andrés Manuel López Obrador com a criação da Guarda Nacional como quarto corpo do exército reacionário. Esta guerra contra o povo é transexenanal, e a contagem dos últimos três sexénios (2006-2024) permite-nos compreender a sua crueza:
Homicídios: FECAL, 121.613 pessoas; EPN, 157.158 pessoas; e AMLO 199.619 pessoas. Total: 478.390 pessoas assassinadas em 18 anos.
Desaparecimentos: FECAL, 17.210 pessoas; EPN, 35.305 pessoas e AMLO, 53.261 pessoas. Total: 105.776 pessoas desaparecidas em 18 anos.
Agora você nos vê?
Fenómenos como o homicídio e o desaparecimento de pessoas no nosso país são o reflexo imediato da guerra contra o povo que se estende a todos os cantos do território nacional, mas não são os únicos. Juntamente com estes, outros fenómenos anómalos como o feminicídio, o tráfico de pessoas, o recrutamento forçado, o deslocamento interno forçado e a crise forense com mais de 72 mil corpos não identificados e uma contagem suspensa por ordem presidencial, expressam a sintomatologia de uma guerra civil reacionária onde as baixas são causadas ao povo. A realidade é clara: durante todos estes anos, cada novo governo, sem distinção de cor ou partido, foi responsável por dar continuidade ao plano geral da reação, um plano em sintonia com os interesses do imperialismo norte-americano.
Sob o discurso de “chegamos todas”, a mulher que hoje preside o nosso país tomou posse a 1 de outubro de 2024. Para surpresa de ninguém, naquele ato político, ela não fez uma única menção às vítimas de desaparecimento nem às suas famílias. Foi preciso que acontecesse a tragédia de Teuchitlán, em Jalisco, cinco meses após a sua ascensão, para que Claudia Sheinbaum Pardo se pronunciasse sobre o assunto, e o fez de forma rígida, formalista e desastrada.

Naquela ocasião, as mães e famílias em busca dos desaparecidos a repreenderam do lado de fora do Palácio Nacional, perguntando: “Presidente, agora você vê-nos?”.
Os números de Sheinbaum.
Recentemente, Claudia Sheinbaum Pardo apresentou um relatório sobre segurança, no qual afirmou que «os homicídios dolosos diminuíram 40% entre setembro de 2024 e dezembro de 2025, passando de uma média diária de 86,9 para 52,4 vítimas, o que representa 34 homicídios a menos por dia, tornando dezembro de 2025 o mês com o menor índice desde 2015”. No entanto, todo o seu discurso se concentrou em porcentagens gerais, evitando falar de números concretos. É verdade que o sexênio de CSP ainda é recente, mas já podemos observar o seu comportamento em dois momentos principais: os primeiros 100 dias de governo e todo o ano de 2025.
Nos primeiros 100 dias, compreendidos entre 1 de outubro de 2024 e 8 de janeiro de 2025, os números ficaram assim: homicídios 7.288 pessoas[3] e desaparecimentos 4.010 pessoas[4].
O ano de 2025 como um todo apresenta os seguintes números: homicídios 20.674 pessoas[5] e desaparecimentos 14.079 pessoas[6].
A violência reacionária que abala o país continua a aumentar e, com as crescentes ameaças de intervenção militar por parte do imperialismo ianque no nosso país, é claro que essa violência se vai aprofundar e continuar a impactar os setores populares, que são, em última análise, as principais vítimas dessa barbárie.
O antigo Estado mexicano aceita claramente uma maior subordinação aos seus senhores imperialistas, e a sua estratégia de segurança atende aos interesses do governo dos EUA centrados na migração, no narcotráfico, no comércio e nos megaprojetos, deixando um ciclo implacável de violência que faz do México o país dos desaparecimentos.
[1] México, o país sem guerra mais perigoso e violento do mundo: ACLED https://acleddata.com/media-citation/mexico-el-pais-sin-guerra-mas-peligroso-y-violento-del-mundo-acled-proceso
[2] México, entre os países com maior aumento nos gastos militares em 2024: SIPRI https://elrumbo.mx/2025/05/02/mexico-entre-los-paises-con-mayor-aumento-en-gasto-militar-en-2024-sipri/
[3] Governo presume queda de 16% nos homicídios entre setembro e dezembro, embora tenham aumentado na comparação anual https://animalpolitico.com/seguridad/homicidios-dolosos-100-dias-sheinbaum
[4] Sheinbaum, 100 dias e 4.000 desaparecimentos https://adondevanlosdesaparecidos.org/2025/01/14/sheinbaum-100-dias-y-4000-desapariciones/
[5] 10% das vítimas de homicídios no México eram menores de idade em 2025: relatório https://www.dallasnews.com/espanol/al-dia/mexico/2026/01/08/violencia-homicidios-mexico-menores-de-edad-ninos-ninas-adolescentes/
[6] Um ano com 14 mil desaparecidos https://www.excelsior.com.mx/opinion/pascal-beltran-del-rio/ano-14-mil-desaparecidos
