Nemesio Oseguera Cervantes e CJNG. Foto: Reprodução.
Partilhamos matéria publicada na imprensa popular e democrática brasileira A Nova Democracia, com alterações linguísticas para facilitar a leitura.
O México foi sacudido, no dia 22 de fevereiro, pela notícia da morte de Nemesio Oseguera Cervantes, o “El Mencho”, cabecilha do Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG). O ex-líder da organização foi abatido pelo Exército mexicano em uma operação no município de Tapalpa, Jalisco. A ação, que resultou de um trabalho de inteligência com participação direta do imperialismo ianque, desencadeou uma reação violenta do cartel em diversas regiões, expondo, mais uma vez, a fragilidade e a decomposição do velho Estado mexicano.
A operação começou a ser desenhada no dia 21, quando investigadores localizaram o paradeiro de “El Mencho” após uma visita de sua namorada ao imóvel em Tapalpa. Com a confirmação de que ele estava no local, o Exército enviou tropas especiais, a Guarda Nacional e seis helicópteros. Durante o cerco, no dia 22, um intenso confronto resultou na morte de oito seguranças do cartel.
Ferido, “El Mencho” foi capturado, mas não resistiu aos ferimentos e morreu enquanto era transferido por via aérea para receber atendimento médico, sendo seu corpo levado posteriormente à Cidade do México sob forte escolta.
A morte do mega traficante, acusado de comercializar fentanil, metanfetamina e cocaína ao EUA provocou uma onda de retaliação sem precedentes. Sob ordens de Hugo “H”, o “El Tuli”, que também seria morto em confronto com militares pouco depois, o cartel reagiu com fúria em Jalisco, Guanajuato, Michoacán, Colima, Tamaulipas e Nayarit. Estradas foram bloqueadas com veículos incendiados, instituições estatais e particulares foram atacadas e o Aeroporto de Guadalajara sofreu uma tentativa de tomada.
O cartel chegou a oferecer uma recompensa de 20 mil pesos por cada militar assassinado. Cidades inteiras paralisaram, com aulas suspensas e voos cancelados. Enquanto a presidente Claudia Sheinbaum tentava transmitir uma imagem de normalidade no dia 23, o pânico ainda dominava regiões turísticas. O imperialismo ianque, através de Donald Trump, aproveitou o banho de sangue para rosnar ordens, exigindo que o México “intensifique os esforços”, como se o Grande Satã – como é conhecido o EUA pela resistência árabe – tivesse autoridade moral para falar de combate ao crime.
O narcoestado contra o povo
A farsa da “guerra contra os cartéis” desmorona definitivamente quando observamos a trajetória de inumeros “figurões” do governo mexicano envolvidos até o pescoço com os cartéis.
Genaro García Luna, ex-secretário de Segurança Pública no governo de Felipe Calderón (2006-2012), foi o funcionário mexicano de mais alto escalão condenado por narcotráfico. Luna recebeu malas contendo pelo menos 6 milhões de dólares em dinheiro vivo para facilitar a entrada de toneladas de cocaína do Cartel de Sinaloa no EUA. Estima-se que os cartéis invistam quase 100 milhões de dólares por ano apenas para subornar as forças de repressão locais.
As provas revelaram que García Luna, enquanto posava de herói do combate às drogas, fornecia informações sobre operações de controle aos traficantes, eliminava membros de cartéis rivais e nomeava outros funcionários corruptos para cargos de maior importância dentro da burocracia estatal. O caso de Luna é mais uma prova cabal de que a cúpula do governo mexicano não combate o tráfico, mas o gerencia, decidindo qual facção terá o monopólio da exportação em troca de propinas milionárias.
Outro crime odioso do velho Estado mexicano foi o massacre e desaparecimento dos 43 estudantes de Ayotzinapa, em 2014, que permanece como um dos símbolos mais crueis do conluio entre o governo e os carteis de drogas. Naquela noite trágica, estudantes foram parados pela polícia municipal de Iguala, atacados a tiros e entregues ao cartel “Guerreros Unidos”. Investigações e testemunhos apontam a participação direta de militares do Exército, que receberam ordens de traficantes para não interferir ou colaborar no crime. O próprio governo de López Obrador (2018-2024) teve de admitir que se tratou de um “crime de Estado”, onde autoridades de todos os níveis estavam envolvidas.
Ayotzinapa é uma ferida coletiva aberta do México. A violência tornou-se parte do cotidiano, gerando um estado de terror permanente e um retraimento social. Enquanto uma parte da sociedade mexicana, podre de rica, vive em bolhas de segurança, o povo pobre enfrenta o desaparecimento de filhos e o medo constante. O número de homicídios ligados aos cartéis de drogas triplicou nos últimos anos, passando de 8 mil em 2015 para mais de 23 mil em 2022, alimentando a banalização do horror para as massas.
A podridão do velho Estado mexicano estende-se aos governos estaduais. Tomás Yarrington, ex-governador de Tamaulipas e ex-candidato à presidência pelo autoproclamado Partido Revolucionário Institucional (PRI), foi condenado no EUA por lavagem de dinheiro e por aceitar subornos do Cartel do Golfo. Já Javier Duarte, em Veracruz, presidiu um governo marcado por valas comuns e assassinato de jornalistas, enquanto desviava fundos de hospitais e de medicamentos para crianças com câncer para enriquecimento pessoal.
A infiltração é tão profunda que em 2010, em Ciudad Juárez, cerca de 300 policiais federais tiveram que prender seus próprios chefes. Os comandantes eram acusados de suspender o policiamento nos dias de transporte de drogas, extorquir os próprios agentes e “plantar” provas para chantagear moradores da região. Ciudad Juárez, uma das cidades mais violentas do mundo, tornou-se o exemplo acabado de como as instituições enviadas para “limpar” a corrupção acabam por se tornar as principais operadoras do crime, cobrando cotas diárias até pela munição dos subordinados.
“Guerra às drogas” e contrarrevolução
A história recente demonstra que a política do imperialismo ianque não é de “guerra contra as drogas”, mas sim de “drogas para a guerra”. Desde a administração Richard Nixon (1969-1974), o imperialismo ianque desenvolveu o tráfico de heroína no Sudeste Asiático para financiar operações militares, transportando ópio em aviões da Air America, de propriedade da CIA (Central Intelligence Agency). Enquanto o consumo destruía a juventude ianque, principalmente negros e imigrantes, a CIA utilizava o lucro do tráfico para contornar o controle do Congresso e financiar agressões internacionais contra povos que lutavam por libertação.
Na América Latina, a CIA interveio durante o governo Jimmy Carter (1977-1981) para livrar chefes do tráfico na Bolívia, permitindo o golpe de Estado de 1980 financiado pelos barões da droga. O escândalo “Irã-Contras” sob Reagan consolidou este modelo: a venda ilegal de armas e o apoio ao tráfico de cocaína financiaram a contrarrevolução na Nicarágua. Redes “CIA-Contras” operavam na Costa Rica e em El Salvador, onde aviões carregados de pó aterrisavam impunemente em bases da Força Aérea no Texas, sob o guarda-chuva protetor do governo ianque para garantir o massacre de camponeses centro-americanos.
O imperialismo ianque patrocinou figuras como Manuel Noriega no Panamá enquanto ele era útil ao cartel de Medellín e aos planos de Washington. Quando se tornou um estorvo, o país foi invadido em 1989 em um ato bárbaro. O mesmo padrão repetiu-se nos Bálcãs, onde o governo Clinton utilizou o tráfico de heroína para equipar o Exército de Libertação de Kosovo durante o bombardeio da Iugoslávia. Em cada cenário de intervenção militar ianque, o narcotráfico não diminui, ele se multiplica, como visto no Afeganistão, que sob ocupação tornou-se o maior produtor de ópio do mundo. O narcotráfico é, em última análise, um dos negócios mais lucrativos do imperialismo, financiando o complexo militar-industrial e incrementando a influência e ingerência das multinacionais.
O “Plano México” e a intervenção ianque
A Iniciativa Mérida, apelidada de “Plano México” em alusão ao sangrento Plano Colômbia, vigorou entre 2007 e 2021 como um “acordo de segurança” subordinado aos interesses do imperialismo ianque. Sob o pretexto de combater o narcotráfico e a lavagem de dinheiro, o Grande Satã – imperialismo ianque – despejou bilhões de dólares em treinamento, inteligência e equipamentos, incluindo 22 aeronaves para as forças de repressão mexicanas. Na prática, o acordo serviu para fortalecer o braço armado do velho Estado, enquanto a produção de drogas, assim como ocorreu na Colômbia, continuava a registrar aumentos constantes.
Ao buscar esta parceria, os governo mexicano alegava que o problema exigia solução conjunta, já que o financiamento dos cartéis provém diretamente do mercado consumidor estadunidense, que movimenta bilhões de dolares anualmente. Funcionários do Departamento de Estado ianque sabiam que a submissão do então presidente Felipe Calderón era certa, entregando a soberania nacional sob a justificativa de que as tropas militares eram a “única opção” contra a polícia corrupta. Contudo, o resultado foi o fortalecimento de um exército que se tornou poderoso demais diante da fragilidade institucional.
A “Iniciativa Mérida” previa formalmente que militares acusados de violações fossem julgados por tribunais civis, mas o Congresso mexicano barrou o monitoramento estrangeiro alegando violação de soberania. Enquanto isso, as denúncias de má conduta, buscas ilegais, estupro e tortura pelas forças de repressão dobraram logo no início do plano. O assédio sexual e estupro de detentas em San Salvador Atenco e o desaparecimento de professoras em Oaxaca, além do assassinato do jornalista Brad Will por policiais fora de serviço, expuseram o caráter repressivo e paramilitar desse acordo imperialista. O caráter criminoso da “Iniciativa Mérida” ficou evidente com o surgimento de vídeos mostrando policiais em León sendo instruídos em métodos de tortura por empresas de segurança do EUA. O treinamento, que durou 12 dias em 2006, foi inicialmente defendido pelo prefeito local antes de ser suspenso sob pressão.
Houve ainda o Projeto Gunrunner da ATF (Birô de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos), que permitiu o envio ilegal de mais de 2 mil armas para o México sob supervisão governamental. O Departamento de Justiça ianque foi acusado de ter “sangue nas mãos”, ao enviar armas de forma premeditada e sistemática para organizações criminosas mexicanas. Jornais como o La Jornada questionaram abertamente se o EUA era um aliado ou um inimigo, exigindo a suspensão imediata da “Iniciativa Mérida”, que violava a soberania nacional enquanto armava os próprios cartéis.
A morte de El Mencho, portanto, não é o fim de um ciclo, mas a continuidade de uma política onde o narcotráfico serve como combustível para o controle político, econômico e social. Enquanto o imperialismo ianque e o velho Estado mexicano, mergulhado até a medula com o narcotráfico, mantiverem seu conluio lucrativo, as massas mexicanas continuarão sendo as vítimas de uma guerra desenhada em Washington e executada pelo velho Estado.
