Foto: Reprodução/ AND
Partilhamos matéria publicada na imprensa popular e democrática brasileira A Nova Democracia, com alterações linguísticas para facilitar a leitura.
No último dia 14 de março, camponeses do Pará e do Maranhão reuniram mais de 150 pessoas no município de Carutapera-MA para uma Assembleia Popular em Defesa do Rio Gurupi. O evento ocorreu em meio a uma sequência de atividades da Campanha Contra a Grilagem e a Mineração no Vale do Gurupi, movida por organizações camponesas e entidades de base da região em resposta à escalada da violência de grupos armados de pistoleiros e da especulação de grileiros em conluio com mineradoras nas terras de comunidades.
Contexto: Vale do Gurupi na mira dos grileiros

Palco de emblemáticos casos de grilagem de terras, a região do Vale do Gurupi — divisa natural entre os estados do Pará e do Maranhão — tem sido, nos últimos anos, mais um entre tantos exemplos da intensidade da guerra agrária que se desenrola no interior do Brasil, entre latifundiários e os pobres do campo.
Os dois estados ocupam, respectivamente, o segundo e o primeiro lugar no pódio de conflitos agrários, segundo a CPT. A expansão do latifúndio, impulsionada pela prática criminosa da grilagem de terras, entra em choque direto com a concentração de camponeses posseiros na região.
De um lado, encontram-se os latifundiários grileiros, sustentados por grupos armados de pistoleiros e pelo apoio de instituições do Velho Estado — como cartórios, institutos de terras e forças repressivas. Do outro, resistem dezenas de comunidades que há séculos habitam a região: milhares de camponeses posseiros que vêm elevando seu nível de resistência e organização, especialmente a partir da fundação da União das Comunidades em Luta – UCL.
Mineradoras e interesses imperialistas
Somando-se aos latifundiários, crescem também os interesses parasitários de empresas mineradoras na região, que agem em conluio com os grileiros para legitimar seus pedidos de “pesquisa minerária” e avançar com a exploração aurífera e o roubo das riquezas nacionais pelos países imperialistas.
Fato que já ocorre historicamente em municípios vizinhos à localidade, a exemplo do município de Godofredo Viana/MA, que por anos viu a empresa Equinox Gold, de capital canadense, realizar o saque de toneladas de ouro da região e aterrorizar os moradores da Vila Aurizona. Neste ano de 2026, as minas foram vendidas para a empresa CMOC Group, de capital social imperialista chinês.
Durante todo o segundo semestre de 2025, entidades e organizações populares têm denunciado mais de uma dezena de autorizações de “pesquisa minerária” por todo o Vale, cedidas pela Agência Nacional de Mineração (ANM) a grileiros e empresas estrangeiras, todas elas sobrepondo comunidades camponesas.
Guerra contra o povo declarada
Na segunda metade do ano passado, as comunidades camponesas da margem paraense do Rio Gurupi viveram uma verdadeira escalada da violência por parte dos grupos paramilitares de pistoleiros na região. Como denunciado pelo Comitê de Solidariedade à Luta pela Terra (COMSOLUTE) e pela União das Comunidades em Luta – UCL, os ataques às comunidades iniciaram em setembro, após uma “visita” de pistoleiros à comunidade do Santo Antônio do Gurupi, município de Viseu/PA. Estes apresentaram os “planos” para o início do processo de mineração e realizaram diversas ameaças aos camponeses, que teriam que aceitar seus objetivos macabros por bem ou por mal.
Com o unânime rechaço dos camponeses do Santo Antônio, os pistoleiros voltaram seus ataques mais violentos para a comunidade vizinha dos camponeses da Gleba Arirama. Dia sim, dia também, essa comunidade se manteve de cabeça erguida frente às tormentas promovidas pelos pistoleiros: No dia 16 de outubro, quatro pistoleiros, com coletes à prova de balas e se autointitulando policiais, expulsam dois camponeses de seu barraco de produção, ameaçando destruí-lo;
Já em 20 de outubro: quatro pistoleiros retornam à comunidade do Arirama, dessa vez com tratores para destruir os barracos dos camponeses. A tentativa de destruição foi frustrada pela mobilização de famílias camponesas presentes, e os pistoleiros ameaçam retornar no dia seguinte. No dia seguinte, seis pistoleiros retornaram e ameaçaram a comunidade: “Se não saírem, vão ser presos!”, e dois dias após,pistoleiros armados e encapuzados foram à comunidade, dessa vez acompanhados de policiais militares do município de Viseu. Sem nenhum processo ou ordem judicial, ameaçaram as famílias que estavam trabalhando em suas roças e levaram um camponês à delegacia do município.
O povo se organiza: inicia-se a ‘Campanha Contra a Grilagem e a Mineração!’
Como noticiado em AND, ainda no mês de outubro de 2025, as comunidades do Pará e do Maranhão juntaram cerca de 210 camponeses e remanescentes de quilombos em uma “Assembleia Camponesa: Contra a Mineração!”, transformando a comunidade Santo Antônio, em Viseu, em um palco de resistência.
Demonstrando o elevado espírito de luta das comunidades, surge então a “Campanha Contra a Grilagem e a Mineração!”, com um calendário de lutas em comum e o objetivo de elevar a unidade de todo o povo do Vale do Gurupi, do campo e da cidade, em torno da luta contra a mineração.
Desde então, dezenas de atividades têm sido realizadas. No mês de novembro, mais de 70 camponeses foram para Belém/PA levando uma faixa de 10 metros com a consigna “Defender o Rio Gurupi: Fora Grileiros, Fora Mineração!” e realizaram uma manifestação durante a COP30.
Várias atividades de panfletagem foram realizadas por ativistas denunciando o avanço da grilagem e da mineração, além da escalada da violência promovida por pistoleiros, distribuindo mais de mil panfletos em Carutapera/MA e Viseu/PA.
Pistoleiros respondem ao avanço da luta do povo
Com o desenvolvimento da Campanha e o crescente espírito de luta, de união e de organização do povo, a pistolagem respondeu de forma desesperada, realizando um brutal ataque à comunidade Arirama.
No fim da madrugada do dia 4 de dezembro de 2025, pelo menos oito pistoleiros mantiveram cativos os camponeses do Arirama, iniciando sessões de agressões físicas e torturas psicológicas, ameaçando as famílias e exigindo que os camponeses desistissem de suas terras, terminando por incendiar todas as casas da comunidade.
Nada pode parar a luta pela terra
Ao contrário do que pretendiam os pistoleiros, tudo isso só elevou a justa revolta do povo, e a solidariedade à luta pela terra apenas aumentou. As comunidades se mantiveram firmes e organizadas e seguiram trabalhando nas tarefas da Campanha, contactando entidades de base das cidades e angariando o apoio necessário para a continuidade da luta.
No dia 24 de fevereiro deste ano, por todo o Vale do Gurupi era possível encontrar faixas com os dizeres “Defender o Rio Gurupi: Fora Grileiros, Fora Mineração!”. Além das margens do rio, também foram hasteadas faixas na rodovia MA-206 e na PA-102, deixando um claro recado aos grileiros: aqui quem manda é o povo.
Assembleia Popular contra a Grilagem e a Mineração

No último dia 14 de março, camponeses do Pará e do Maranhão reuniram mais de 150 pessoas no município de Carutapera-MA para uma Assembleia Popular em Defesa do Rio Gurupi. O evento contou com a participação das organizações populares e entidades de base: União das Comunidades em Luta – UCL; Movimento Camponês Popular (MCP-Maranhão); Associação Gurupi Ambiental (AGA); Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Carutapera – SINTEP CARU; Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Servidor Público Municipal de Carutapera – SINTRARP; Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (CEPASP); e as Brigadas Populares do Pará; além de representantes de comunidades do Pará e do Maranhão e do Poder Legislativo de Carutapera.
Iniciando de forma uníssona com a música Conquistar a Terra!, desde o início os camponeses e entidades ali representadas demonstraram sua disposição de luta. As saudações iniciais transbordavam ânimo e combatividade, além de demonstrar a união da luta do campo com a da cidade.
A mesa principal sobre “O caminho da luta contra a grilagem e a mineração” fundamentava a direta relação que existe entre a luta camponesa no Brasil e a luta dos povos oprimidos do mundo, a relação do avanço da grilagem de terras e, particularmente, da mineração, com as guerras promovidas pelo imperialismo, principalmente ianque. Ainda, rememorava o histórico das lutas camponesas no Norte e Nordeste, as mais recentes resistências camponesas do Vale do Gurupi, a importância da união do campo e da cidade, e reafirmava o caminho de luta na defesa da terra para quem nela vive e trabalha.
Todas as intervenções reafirmaram a união, a necessidade de seguir se organizando e de lutar. Após a apresentação e votação das resoluções (em anexo), a camponesa ativista da UCL que coordenava a Assembleia encerrou da seguinte forma:
“O êxito no cumprimento dessa tão importante atividade é apenas uma amostra das grandes vitórias que conquistaremos nesse árduo caminho de luta. É a prova de que o povo unido é capaz de tudo, de que não há obstáculo, pedra ou até mesmo montanha no caminho que consiga barrar a justa luta do povo. Por isso, reafirmamos, uma vez mais, nossas calorosas saudações a todos aqueles que desde suas comunidades resistem bravamente ao avanço da grilagem de terras, que enfrentam dia e noite o terror promovido pela pistolagem e que, organizados, frustram os planos macabros dos interesses imperialistas em nossa região — se não fosse a luta dos camponeses, essa Assembleia não ocorreria!”
Em seguida, foi realizada uma combativa passeata em direção à Praça Padre Augusto Mozett, cantando novamente Conquistar a Terra! e palavras de ordem como: Viva a luta pela terra! Abaixo a mineração! Abaixo a grilagem!. .
Os manifestantes fizeram um círculo na praça, em frente à Basílica de São Sebastião, e realizaram a queima da bandeira ianque entoando a palavra de ordem Yankees, go home!.


A campanha em defesa do Vale do Rio Gurupi segue em curso e convida todas e todos interessados em se somar às atividades de mobilização e contribuir com essa luta a entrar em contato por meio dos canais das entidades como a União das Comunidades em Luta (UCL) e o Comsolute, ou ainda pela página de Instagram criada para divulgação das atividades.
