Foto: Reprodução/ AND.
Partilhamos matéria publicada na imprensa popular e democrática brasileira A Nova Democracia, com alterações linguísticas para facilitar a leitura.
Atendendo ao pedido de camponeses do Acampamento Tiago Campin dos Santos 3, na mesma região onde desde 2020 mais de 600 famílias lutam sob a direção da Liga dos Camponeses Pobres (LCP) na Área Tiago Campin dos Santos, o Comité de Apoio ao AND esteve no local para verificar a situação em que se encontram as famílias camponesas após recentes ataques de pistoleiros e da Polícia Militar (PM) contra os camponeses em luta pela terra. Os ataques se agudizaram com a “Operação Godos” do Ministério Público de Rondônia (MP/RO), com atuação da PM e Polícia Civil, visando a criminalização do movimento camponês combativo.
O Comité de Apoio (CdA), em conjunto com a Associação Brasileira dos Advogados do Povo – Gabriel Pimenta (ABRAPO), realizou uma atividade no dia (23/11) de 2025, ouvindo os camponeses e acompanhando a situação de perto. A área camponesa é uma nova tomada de terra de uma outra faixa, do ex-latifúndio NorBrasil, que pertencia a António Martins, mais conhecido como Galo Velho, na região localizada a dois quilômetros e meio da BR-364, às margens do rio Cutia.
Uma nova missão de solidariedade está sendo organizada pela ABRAPO e o CEBRASPO para um Tribunal Popular na Área, que será realizado nos dias 28 e 29 de março.
Conheça o quotidiano dos moradores do Acampamento
Logo ao chegar, os companheiros foram recebidos calorosamente pelos camponeses e imediatamente escutaram diversas denúncias sobre as ações da PM, bem como dos ataques cometidos por guaxebas (como os camponeses chamam quem pratica a pistolagem), segundo eles, comandados pelo latifundiário João Martins, sobrinho de Galo Velho. Foram relatados inclusive ataques que ocorreram dias antes da chegada do Comité na área.
O ex-comandante geral da PM/RO e aspirante a Tiktoker, Regis Braguin, tem utilizado seus perfis para criminalizar a luta pela terra no estado de Rondônia, e recentemente promoveu inúmeros vídeos e declarações que criminalizam camponeses e a LCP. Durante as ações na área e após a “grande” operação, o “influencer” publicou inúmeros vídeos e deu diversas entrevistas se vangloriando das ações e suas operações, que na prática consistiram em perseguir as famílias camponesas, que há mais de cinco anos lutam naquela região.
Os camponeses entrevistados denunciam que os responsáveis pelo terror na região não são eles, mas os bandos de pistoleiros juntamente com a PM. Em entrevistas, os camponeses relataram em detalhes os ataques arbitrários do Batalhão de Operações Especiais (BOPE), as intimidações e ameaças dos guaxebas, as dificuldades de acesso à escola e a rotina dura no acampamento. Cada depoimento relata a luta na região e expõe a violência praticada pelo latifúndio e pelas forças de repressão do velho Estado.
Em entrevista, um camponês denunciou que ocorreram ameaças de incriminação forjada, além de terror psicológico contra mulheres e crianças. Entre as denúncias mais graves, está o caso de uma policial que ameaçou incriminar uma mãe com um bebê de 4 meses: “Teve uma policial que foi na casa de uma moradora, e ela estava sozinha com um bebezinho de 4 meses. Falou para ela que, se ela voltasse ali durante 15 dias, e se não achasse nada para incriminar ela, ia colocar um objeto dentro da casa dela para incriminar ela. […] Isso não é o dever de uma polícia honesta. […] Uma polícia dessa não tem o direito de cobrar nada de ninguém, ainda mais vestir uma farda do Estado para tentar prejudicar as pessoas”.
Outro camponês denunciou que a Polícia Militar agiu claramente a serviço do latifúndio: “Eles estão trabalhando para fazendeiro, que é a polícia que veio fazer a patrulha aqui nessa estrada. […] O fazendeiro que paga as polícias, vieram, ameaçaram a gente, fizeram nós perder todas as nossas coisas, alimentação das crianças, saímos a pé, sem condições nenhuma, por vários quilômetros. […] Falando que a gente está roubando o gado dele, é o oposto, a gente perde. […]A gente não tá roubando, agora eles estão destruindo até a nossa alimentação”.
Segundo os relatos dos camponeses, após a operação policial, o latifundiário João Martins, sobrinho do Galo Velho, acompanhado de policiais, destruiu deliberadamente a ponte construída pelos camponeses. Sua presença ao lado da PM durante a operação teria sido gravada em vídeo e publicada em suas “redes sociais”:
“Essa ponte que foi destruída pela polícia, foi a polícia e o João, João Martins, que veio aqui e destruiu a ponte, é dois quilômetros e meio para a gente chegar na BR-364. E foi destruído o sonho de muita gente. Eu acho que o direito de vir, ninguém tem o poder de acabar com ele. Nós temos o direito de ir e vir!”, demarcou um camponês que não quis se identificar.
O camponês relatou como a ponte havia sido construída com esforço coletivo: “Ela foi construída com a ajuda dos moradores. Juntou uma grande maioria, serrou a madeira. Os outros puxaram as árvores maiores, máquinas, motor de serra. É como todo mundo sabe: para fazer uma ponte precisa de máquina, precisa de motosserra, precisa de madeira. Então, nós não tivemos nenhum recurso público. Foi tudo usado pelas nossas forças.”.
E seguiu: “Hoje, a gente chegar aqui e ver essa ponte toda destruída, eu acho que é um tapa na nossa cara. É muito doído o tanto que nós sofremos para fazer essa ponte. Vocês sabem que não é fácil. O órgão público gasta 30 dias ou mais para fazer uma ponte dessa, e a gente fez em dois dias. A gente conseguiu fazer uma ponte dessa com a ajuda de todos os moradores que aqui têm assentado, mais de 600 famílias. Então, todo mundo ajudou: um ajudou com um quilo de prego, outro com um litro de gasolina, e nós chegamos na conclusão da ponte.”
A destruição da ponte isolou as famílias e impediu que mais de 30 crianças que vivem no acampamento acessassem a escola e dificultou o transporte de alimentos e sua produção — que, segundo os camponeses, abastece Porto Velho: “Isso aqui é ruim para nós, tem tanta família aqui, criança, que pensa no futuro, tem bastante criança para estudar, depende dessa estrada. E hoje se nós se torna numa situação aqui isolada, é devido a essa ponte. Juntou todos os situantes e construiu essa ponte com recurso próprio, porque se for esperar o governo, ele só sabe é difamar o assentamento. E aqui tem muita produção, macaxeira, milho, coisa que a gente pode provar, que vai pra capital, Porto Velho, que serve realmente pra quem tá vindo aqui falar que nós é bandido se alimentar. Levar um milho verde pra sua família comer e sai da onde? Sai daqui.”
Os depoimentos também afirmam que João Martins e a Polícia Militar utilizaram um documento falso para expulsar momentaneamente as famílias do local, de modo que não testemunhassem a implosão da ponte: “Para que a gente não participasse do momento da implosão, eles nos deram um documento de má fé, dizendo que aquele documento tinha validade e determinava que a gente fosse para a vila. Só que era um documento que não existe. O advogado puxou, esse documento não existe. Era para que a gente não visse ele implodindo a ponte”.
O camponês relata ainda o uso de coerção e ameaças explícitas: “O João Martins, juntamente com os policiais, implodiram a ponte enquanto a gente estava indo para a vila. A gente foi obrigado. Se a gente não fosse, a gente ia levar choque e outras coisas — essas foram as palavras deles. Falaram de multa diária de 5 mil reais para quem ficasse pra trás. Sem identificação, só armas. Deram tiro pra cima, meus cachorros sumiram no mato, as crianças ficaram apavoradas”.
O relato do camponês continua: “o sobrinho dele [de Galo Velho], o João Martins, que entra aqui mais os seus capangas e faz a destruição aqui, entendeu? Então nós não sabemos se houve um pagamento para a polícia vir aqui, como ele já até confirmou numa matéria aí, que ele paga a polícia para defender o bem dele não é crime, mas isso aí é milícia. Então, se para ele não é milícia, como que nós vamos viver? Porque a devida hora que o cara paga a polícia, se chama milícia, e eles vêm aqui e fazem, e ele está junto. Nós temos vídeos, temos fotos dele junto com a polícia. Então, a gente vê ele aqui destruindo nossas coisas, eu acho que é ruim, como pra nós, como pra ele, né? Porque ele tá colocando a vida de muita gente em risco.”
Anteriormente em reportagem especial de AND, foi confessado por João Martins a contratação de policiais para segurança privada de seus patrimônios.
Balsa é explodida em ataque contra os camponeses
Na sexta-feira, dia 21 de novembro, uma nova ofensiva foi realizada pela PM, e, segundo os camponeses, em conjunto com pistoleiros a mando do latifundiário João Martins. A ação mirou diretamente a balsa utilizada pelas famílias, destruindo parte fundamental da infraestrutura para que as crianças não se afoguem no rio e para o meio de transporte das famílias.
Segundo uma das camponesas, o ataque ocorreu de forma brutal e arbitrária: “Agora, dois dias atrás, veio novamente a Polícia Militar, BOPE, juntamente com o João Martins e outros rapazes dele. Tocaram fogo na balsa, jogaram as pranchas tudo fora e eles não deixavam a gente se aproximar. Quando a gente tentava se aproximar, eles usavam de agressividade. Todos eles, todos eles fizeram isso. Foi aterrorizante, foi horrível o que a gente passou. Tanto no dia que implodiram a ponte, como no dia de antes de ontem”.
A camponesa reforça que, durante a ofensiva, não houve qualquer consideração com as crianças, que estavam no local no momento do ataque: “Eles não tiveram consideração com as crianças. Tinha muita criança, muitas armas. Eles não tiveram consideração por nós, pelas mães, que a gente tá aqui só pra sobreviver, tentando ter um meio de vida melhor, uma terra pra plantar alguma coisa. A gente não tá aqui pra fazer mal pra ninguém”.
Ela denuncia ainda que os latifundiários e seus pistoleiros produzem vídeos e acusações falsas, tentando criminalizar as famílias, ao mesmo tempo em que queimam bens e espalham terror: “Até o dia de hoje, eles fazem vídeos de coisas que, na verdade, eles que estão fazendo, como vocês viram: queimaram as coisas aqui do outro lado do rio, que não tem nada a ver. E estão sempre impondo medo”.
Na mesma noite do ataque, o terror continuou: “Antes de ontem, às seis horas da tarde, a gente estava jantando aqui e eles começaram a atirar desenfreadamente do outro lado do rio. A gente teve que abandonar tudo aqui, apagar tudo e se esconder. Com medo.”
O ataque à balsa se soma à destruição da ponte, às ameaças constantes e às investidas armadas contra a Área Tiago Campin dos Santos, evidenciando que a ofensiva do latifúndio — com apoio direto da Polícia Militar — tem caráter sistemático e coordenado, voltado para expulsar as famílias e impor um regime de terror permanente na região. Esses ataques contínuos e arbitrários isolam deliberadamente os camponeses, cercando-os e impondo um quotidiano de violência.
Camponeses resistem e produzem apesar da repressão
O quotidiano no Acampamento Tiago Campin dos Santos é marcado por uma rotina de trabalho coletivo, resistência e organização popular, mas também por um permanente estado de alerta imposto pelo terror armado do latifúndio, respaldado pela PM. A vida das famílias camponesas — composta maioritariamente por mulheres, crianças e idosos— é atravessada pela violência diária, que transforma tarefas simples em atos arriscados e noites inteiras em vigílias forçadas.
Os relatos colhidos pela reportagem escancaram a realidade brutal vivida pelos camponeses, sobretudo as consequências psicológicas e físicas da ofensiva paramilitar. Um dos camponeses descreveu o trauma enfrentado pelas crianças, que passaram a conviver com rajadas de tiros disparadas pela pistolagem: “Porque as crianças nossas nunca escutaram tiro, né? Um monte de tiro, de qualquer calibre. Aí os nossos filhos não conseguem dormir direito toda noite. Toda noite é um susto. As crianças choram. Muitas crianças dos meus parceiros aí também, que não conseguem… A gente não consegue dormir. Até a minha mulher também. Porque eu tenho um filho aí, tenho quatro filhos, mas eles não conseguem dormir. Porque eles amanhecem assim mesmo. De medo de escutar os tiros também.”
Outro trabalhador denuncia que até mesmo momentos básicos de convivência familiar — como dar banho nos filhos — tornaram-se atividades perigosas, interrompidas a qualquer instante pela presença de caminhonetes de pistoleiros armados: “Não consegue nem viver assim de tranquilidade aqui. É uma necessidade muito difícil pra nós, né? Porque aqui tudo é paz de família, não existe um pessoal estranho. Porque aqui todos são pais de família, mãe e os filhos também, nós aqui. Eles, quando querem dar um banho, mas só que eles estão com medo. A gente vigia eles e fica assim, de cima. Mas quando a gente vê a caminhonete e os pessoal do outro lado de lá, a gente corre, a gente não consegue banhar direito, a gente sofre nessa ameaça”.
Mesmo sob risco permanente, o acampamento mantém uma rotina coletiva organizada, coletiva na solidariedade entre as famílias. Uma camponesa relatou como funciona a dinâmica diária: “Aqui o dia-a-dia é assim. Nós temos um horário específico de acordar, dar café da manhã das 4 às 6. Café da manhã é servido bolinho, a gente sempre faz frito porque não tem forno, nem energia elétrica. Leite, tem um pessoal que doa, a gente busca todo dia 15 ou 20 litros para as crianças tomarem de manhã e à tarde. O almoço é servido às 11h sem falta, todos os dias. Às 3h da tarde é a merenda das crianças. Às 6h da tarde a janta tá prontinha já, pra todos. Essa é a rotina diária em relação à alimentação”.
Mas a organização e o esforço coletivo convivem com a ameaça constante das ações criminosas do latifúndio. Drones, investidas armadas e tiros vindos do outro lado da cerca transformam a terra numa zona de guerra imposta: “Mas em relação ao dia-a-dia que a gente passa aqui, a gente é bem oprimido. Às vezes duas ou três vezes por dia o drone vem aqui por cima. O drone do João Martins. Ontem ele veio. E o dia-a-dia nosso aqui é bem difícil. Sempre eles estão atirando de lá pra cá e a gente tem que se esconder. Porque a gente fica sem saber o que fazer exatamente nessas situações. Então o que a gente faz é se esconder. Mas esse é o nosso dia-a-dia. Sempre fugindo, se escondendo e tentando sobreviver”.
Ainda, os camponeses do acampamento dirigiram um recado direto ao ex-comandante-geral “Tiktoker” da PM/RO, coronel Braguin. Responsável por conduzir e justificar a repressão criminosa contra as famílias, o oficial passou a ocupar espaço na imprensa reacionária local difundindo a versão dos latifundiários, criminalizando camponeses desarmados e ocultando os abusos cometidos sob seu comando.
Um dos acampados respondeu com firmeza às mentiras divulgadas pelo policial: “Então essa pergunta vai pro ‘Braguinho’ (se referindo ao Regis Bragin). Como ele fala que ele é sempre do lado da verdade, da justiça, da sociedade… Quando ele for jogar uma reportagem no ar, pra ele verificar dos dois lados se realmente ele tá fazendo certo. Porque ele fala muito de ‘verdade’, de ‘justiça’, mas ele tá agindo com injustiça, jogando coisas na média que é totalmente oposto do que tá acontecendo. […] Eles estão trabalhando para fazendeiro.”
O camponês denuncia que a PM utilizou uma operação — que nada tinha a ver com o acampamento — para agir em conjunto com o latifúndio, destruindo pertences, alimentos e obrigando famílias inteiras a caminharem quilômetros sem qualquer assistência:
“Eles vieram fazer uma operação que não tem nada a ver com acampamento ou retirada de pessoas. Aproveitaram o trabalho dessa operação e, com o fazendeiro que paga as polícias, vieram, ameaçaram a gente, fizeram nós perder todas as nossas coisas, alimentação das crianças. Saímos a pé, sem condição nenhuma, vários quilômetros.”
Os camponeses reafirmam que não são criminosos, ao contrário do que a PM afirma à imprensa reacionária do velho Estado: “A gente está lutando sem arma, lutando com coragem, porque a gente precisa de um lugar pra morar. E nós não somos bandido. Pra falar que nós somos bandido, queremos prova disso aí. Queremos prova de droga que eles acharam aqui. Queremos prova de arma. Eles não acharam nada. Acharam criança, acharam mulher, acharam idoso lutando. Então eu quero justiça. Quero que o Braguinho fale a verdade. Se ele for homem mesmo, que venha verificar nossa situação primeiro.”
Outro acampado agradeceu aos companheiros que têm apoiado as famílias e fez um apelo para que a sociedade veja quem realmente são os camponeses perseguidos pelo latifúndio:“Agradeço todos os companheiros que olham pela gente e veem no nosso rosto o sofrimento que estamos passando aqui, e não se transmite como se nós fosse bandido que nem o Braguinha fala. Ele hoje, infelizmente, é o comandante da Polícia Militar de Rondônia e vem aterrorizando os moradores dessa região. Quando vocês veem uma imagem dessa, olhem pra nós: nós aqui é trabalhador. Nós luta, levanta cedo, tira o leite pra mandar pra cidade. Às vezes o pessoal da cidade vê nós como traficantes, assassinos. Não. Aqui todo mundo é do bem. Não tem ninguém aqui que faz essas coisas que eles falam.”
As falas reforçam que a criminalização das famílias é o modus operandi da extrema direita de justificar o terrorismo do velho Estado praticado para beneficiar o latifúndio. Os depoimentos coletados revelam que o terror promovido pelo velho Estado a serviço dos latifundiários contra as famílias, e que não se resume a ações pontuais, mas constitui uma rotina de ataques planeados e disparos intimidatórios. Um camponês relatou que, desde o primeiro dia em que chegou à Área, vive sob constante ameaça: “Desde o dia que eu cheguei, eles vêm aqui, na beira do rio, efetuam disparos e ameaçam a população que está aqui. E, inclusive, teve pertences queimados, barracos queimados, justamente pela ira deles. Eles sabem que não tem como deter. Aqui somos pessoas humildes, pessoas trabalhadoras, pessoas que não temem e não devem nada à justiça (…).”
O camponês também descreveu um dos ataques mais recentes, ocorrido há poucas semanas, quando quase perdeu a vida: “(…) Faz umas duas semanas. Dessas duas semanas atrás, exatamente. Eu vim banhar, e quando eu vim banhar eu vi o foco de uma lanterna. Vi do outro lado, lá da fazenda, né? Vi no sentido da BR pra cá. E, quando eu cheguei nesse local aqui, eu me deparei com quatro caras encapuzados, armados. E assim que eles me avistaram, eles efetuaram o disparo. E eu estava perto… depois que eu corri. Esse caminhão aqui, atirado lá de lá, quase pegou em mim. Aqui tem o registo ainda, justamente de onde pegou. Quase fui vítima das ações, das atrocidades deles.”
Guaxebas atiram contra ativistas do AND, advogados da ABRAPO e camponeses
Durante a atividade, os camponeses construíram uma ponte improvisada para que a equipe do CdA e da Abrapo atravessasse para o outro lado do rio e pudesse registar o cenário de destruição deixado pelo BOPE.
A caminhada até o local durou cerca de 15 minutos. No local, a equipe encontrou um rastro de devastação promovido pelo velho Estado reacionário: barracos queimados, comida destruída, brinquedos jogados no chão, fraldas, roupas, panelas e pertences pessoais espalhados ou carbonizados. Segundo os camponeses, a expulsão foi tão arbitrária e repentina que muitos sequer conseguiram recolher o mínimo necessário para levar consigo.
Durante o registro da cena, os camponeses avistaram à distância uma caminhonete com pistoleiros se aproximando. Em menos de dez minutos dentro da Área todos foram obrigados a retornar, correndo, para atravessar o rio novamente. Durante o trajeto de volta, uma série de disparos foi efetuada, que só cessaram quando todos conseguiram cruzar para o outro lado.
Apesar de ninguém — mulheres, homens e crianças— ter sido ferido naquele momento, ficou evidente que essa é a realidade quotidiana dessas famílias, uma luta diária pela sobrevivência diante da ofensiva armada do latifúndio e da repressão do velho Estado que protege o latifundiário. Esses são desdobramentos cada vez mais comuns da guerra imposta contra os camponeses que seguem lutando pela terra e pela destruição do latifúndio, único caminho possível para construção de uma nova vida para as famílias, de uma Nova Democracia.

Após a visita realizada ao Acampamento Tiago Campin dos Santos 3, foi organizada uma missão de solidariedade com diversas organizações e entidades à Área Revolucionária Tiago Campin dos Santos em dezembro de 2025, com o objetivo de ouvir os camponeses e registar as denúncias de violências ocorridas durante a chamada Operação Godos, realizada em novembro de 2025.
Missão de solidariedade em dezembro escuta os relatos dos camponeses da Área Revolucionária Tiago Campin dos Santos sobre operação Godos
“Eu acordei com tiros. Depois eles entraram quebrando a porta. Só depois de atirar é que gritaram que era polícia.” O relato é do filho do camponês Elias, de apenas 15 anos, onde que seu pai foi morto durante a Operação Godos, deflagrada no dia 12 de novembro de 2025, na área camponesa Tiago Campin dos Santos, distrito de Nova Mutum-Paraná.
Relatórios e denúncias
As entidades que compuseram a missão a Associação Brasileira dos Advogados do Povo (ABRAPO), Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos (CEBRASPO), Comissão Pastoral da Terra (CPT), representante da Comissão de Direitos Humanos da OAB/RO, Diretório Central dos Estudantes (DCE/UNIR), Executiva Nacional de Estudantes de Pedagogia (ExNEPe), Centros Académicos da UNIR, jornalistas e advogados; Pesquisadores da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia (IFRO) e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Também acompanhou a missão o Superintendente Federal do Desenvolvimento Agrário de Rondônia, Gervano Vicent.
Chegada da polícia na residência de Elias
Segundo filho de Elias, por volta das cinco horas da manhã, enquanto dormia em seu quarto, ouviu dois estampidos vindos do exterior da casa. Seu irmão mais velho, Felipe, de 21 anos, estava no banheiro se preparando para sair para o trabalho com o pai.
“Depois dos tiros, eles arrombaram a porta e começaram a atirar dentro de casa. Atiraram muito no quarto do meu pai”, relata o adolescente. De acordo com testemunhas, mais de 60 disparos de fuzil atingiram as paredes da residência.
Elias foi baleado no tórax e morreu no local. Sua esposa, mãe de Filho de Elias, foi atingida por três tiros no abdômen e permaneceu ferida por horas até ser socorrida. Ela segue internada em estado grave.
“A gente só soube que era polícia depois. Eles atiraram primeiro, depois gritaram que eram policiais”, afirma Filho de Elias.
Violência e tortura contra os filhos
Após a morte do pai e com a mãe gravemente ferida, os filhos de Elias foram algemados com as mãos para trás. O adolescente permaneceu nessa condição por cerca de duas horas, enquanto as ameaças e agressões se estenderam por mais de oito horas.
“Se eu olhasse para o lado, apanhava. Levei tapa, murro, coronhada. Me jogaram no chão com rasteira”, conta. Segundo ele, os policiais também o ameaçaram psicologicamente: “Disseram que iam torturar meu irmão na minha frente, que iam cortar o pescoço dele se eu não falasse coisas que eu nem sabia.”
O filho de Elias afirma que não resistiu, e não tentou fugir e não estava armado.
Cena do crime alterada
Familiares e moradores denunciam que a cena do crime não foi preservada. Cápsulas teriam sido recolhidas antes da chegada da perícia, que permaneceu no local por cerca de uma hora.
Além disso, câmeras de segurança da residência e de áreas comuns do acampamento foram quebradas ou levadas pelos policiais. Celulares, equipamentos eletrónicos e outros bens também teriam sido apreendidos sem mandado ou recibo. “Levaram tudo. Até as câmeras que podiam mostrar o que aconteceu”, afirma um familiar.
“Meu pai não era bandido. Era trabalhador. E agora querem que eu prove isso, depois que mataram ele”, conclui o filho de Elias.
Versão oficial é contestada
Na versão apresentada pela polícia, o ataque teria ocorrido no “Castelinho”, uma lanchonete localizada a certa distância do local, já na BR-364. No entanto, as marcas de tiros encontradas na residência do camponês Elias comprovam que o ataque aconteceu em sua casa, e não no estabelecimento mencionado. E, a própria polícia que levou o corpo de Elias ao estabelecimento. “Quem levou o corpo para identificar lá, foi a própria perícia, não foi o IML que levou, o IML não veio buscar, a perícia que levou o corpo.”, relata o familiar.
Camponeses relatam terror
Durante a missão realizada no dia 6 de dezembro de 2025, cerca de 80 camponeses relataram abusos semelhantes: casas, escola, posto de saúde e comércios arrombados; xingamentos, humilhações e roubos de pertences; consumo de produtos e saque de mercadorias por policiais.
Mulheres, crianças e idosos relataram estado de choque permanente, com policiais entrando armados em ônibus escolares e abordando moradores sem qualquer justificativa legal.
“Era fuzil apontado pra todo lado. Mulher, criança, idoso. Xingavam, chamavam a gente de vagabundo. Nunca passei tanta humilhação na minha vida”, conta.
Diversos moradores afirmaram que foram submetidos a revistas pessoais sem qualquer fundada suspeita, com apreensão arbitrária de celulares, computadores e antenas de internet.
“Tomaram meu celular, não deram papel nenhum. Até hoje não sei onde está”, diz um camponês.
Escola e comércios arrombados
Relatos apontam que a escola da comunidade foi ocupada por policiais, com salas arrombadas e equipamentos violados. Uma mãe conta que, ao levar os filhos para a aula, foi surpreendida por homens armados.
“Um deles falou: ‘Volta pra casa. Decretamos férias’. Com fuzil na mão, rindo da nossa cara.”
Tribunal Popular em Rondônia
Diante desses relatos, fica evidente que a violência denunciada não se trata de um caso isolado restrito às áreas de luta da Liga dos Camponeses Pobres (LCP), mas integra uma realidade mais ampla de violações enfrentadas por diversos povos do campo na região.
Com o objetivo de dar visibilidade a essas denúncias e ouvir diretamente os atingidos, será realizado um Tribunal Popular, que reunirá relatos de camponeses, indígenas, ribeirinhos e quilombolas sobre os conflitos agrários e violações de direitos no estado de Rondônia. A atividade ocorrerá nos dias 28 e 29 de março, em Porto Velho (RO), e busca reunir organizações populares, entidades de direitos humanos, estudantes e democratas para escutar e apoiar a luta pela terra em Rondônia.
